Os mortos valem mais que os vivos

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Por que dispensamos aos que se foram tratamento muito mais especial do que lhes dedicávamos em vida? Será próprio da natureza humana a atitude de valorizar pessoas, eventos e situações apenas quando as perdemos, sem lhes atribuir o devido reconhecimento quando as temos ao nosso lado, próximas e presentes? O mundo não seria bem melhor se os vivos fossem descritos e valorizados com a mesma sinceridade e emoções com as quais tratamos os nossos mortos?

Em vida, poucos visualizavam em Eduardo o futuro chefe de estado brasileiro, e a imprensa lhe dispensava cobertura mais tímida do que aos seus dois adversários principais. No período da consolidação de sua aliança com Marina, esteve momentaneamente em evidência, mas seu percentual de intenções de voto, que teimava em não ultrapassar os 10%, fez dessa uma situação efêmera e dificultou também que se tornasse mais conhecido. As menções e reportagens disparadas pela grande imprensa localizada no eixo RJ-SP tendiam a ser levemente negativas, com questionamentos sobre as contradições de sua chapa e os métodos de Eduardo para arregimentar aliados em Pernambuco, que não o diferenciava como candidato que renovaria as práticas políticas. Também foi alvo de insultos por parte dos seus antigos aliados petistas, através de seus guerrilheiros virtuais. De Lula, seu ex-padrinho, ouviu insinuações de que seria o novo Collor.

Vitimado pela triste tragédia em 13 de Agosto, tornou-se quase um mártir. Foi elevado à condição de futuro presidente pela mídia (não agora, mas para o futuro) e rotulado como a mais promissora liderança política de sua geração. Seus princípios corretos de homem de família e sua capacidade de gestão foram exaltados, bem como seu poder de conciliação e diálogo. Tivesse o Brasil conhecido mais cedo as inúmeras virtudes de Eduardo Campos que nos foram apresentadas somente após a sua ´partida´, ele seguramente experimentaria no mínimo o triplo de intenções de voto. Recebeu homenagens de todos os adversários, mesmo daqueles que se dedicaram a ofendê-lo nas semanas anteriores. A diferença de opinião do PT sobre Eduardo Campos,  vivo e morto,  é um verdadeiro ultraje à inteligência dos seres humanos racionais. Qual delas seria verdadeira?

Não pretendo aqui fazer juízo de valor sobre as qualidades do Eduardo, mas apenas questionar a perversa natureza humana: se ele era tudo isso de bom, por que não fomos avisados antes? Por que foi vilipendiado em vida por seus ex-aliados? Só por que cometeu o pecado de alçar voo solo?  Todos nós brasileiros não estaríamos muito melhor servidos de esperança, caso conhecêssemos mais a fundo o líder mais promissor de sua geração, enquanto estivesse vivo?

Humanos preferem criticar a elogiar. Poderíamos nesse caso, ter lições com os cães, que sempre apreciam as qualidades de seus donos em detrimento dos seus defeitos. O mais decepcionante desse exemplo é a constatação que não sabemos dimensionar o real valor das pessoas vivas, do lado de cá. Ou então somos todos tremendamente hipócritas nas homenagens póstumas. Poderíamos deixar as preferências e interesses individuais de lado e perguntar a nós mesmos: será que não há nada de bom ao nosso redor que não estamos aproveitando? Pensemos nisso, antes de capricharmos no epitáfio…

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3 Comments
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3 Comentários

  1. Cristina Braz

    2 de novembro de 2016 em 16:56

    Parabéns Victor, seus textos são extremamente cativantes e proporcionam conhecimentos novos.

    1. Victor

      2 de novembro de 2016 em 20:36

      Obrigado, Cristina!!!! Abs

  2. Irone Santiago

    29 de novembro de 2016 em 15:02

    Sabe Victor também tenho um filho chamado Vitor,estou travando uma luta muito grande ao que se refere morto ou vivo ‘quem vale mais’é a pergunta que me faço todos os dias .meu filho foi vítima do exército brasileiro levando dois tiros de fuzil 762 conseguil sobreviver mais ficou grandes sequelas !me envolvi com um grupo de mães que tiveram seus filhos mortos , e quando veio as diferença me faço uma pergunta carne morta Vale mais que carne viva ? Isso é um pouco de nossa história.

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