Uma falha no computador…

 

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Quarta-feira, fim de tarde. Tempo bom na capital paulista, indicativo de que a ponte aérea para a cidade maravilhosa  passaria sem sobressaltos. Eu me dirigia ao aerporto de Congonhas com uma certa alegria, pelo fato de despir-me por algumas horas das mais variadas preocupações laborais. Assistiria a um jogo de futebol,  o primeiro embate entre Vasco x Corinthians, pela Libertadores de 2012. O retorno estava marcado para a manhã seguinte, sequer teria a possibilidade de andar pela cidade, com a qual mantenho vínculos afetivos desde os tempos das férias de infância com a família. Apesar de curta, era uma pausa no meio da semana extremamente bem-vinda.

No aeroporto, sempre cheio àquela hora do dia, tínhamos a presença de alguns corinthianos que se aventurariam até a controversa barreira de São Januário, conhecida pela recepção pouco amistosa à algumas torcidas, entre elas a do Corinthians. O acesso ao estádio vascaíno é pouco aprazível e as condições para a torcida visitante não são muito convidativas. Mas aquilo não era um problema para mim, que já havia adquirido meus ingressos nas cadeiras cativas do Caldeirão e planejava assistir à difícil peleja junto a um amigo de longa data e meu irmão, que se deslocaria de Curitiba ao Rio com o mesmo objetivo. O futebol nos influencia a tomar atitudes racionalmente inexplicáveis. Afinal, seria muito mais confortável assistir ao jogo na poltrona diante da TV da sala.

falhanocomputador2O vôo, quase lotado, transcorria normalmente e do céu já avistávamos as luzes da cidade iluminando a Baía da Guanabara. Em breve aterrisaríamos, conforme alertara o próprio aviso do comandante. Eis que repentinamente, o avião interrompeu sua trajetória de descida e arremeteu. Alguns momentos depois, ouvimos a seguinte mensagem: ‘Caros passageiros, houve uma falha no computador e por isso alteramos nossa rota para aterrisar no aeroporto do Galeão.’ E foi só.

Nenhuma outra palavra. Após o anúncio tão objetivo quanto incompleto, algo como receio entre murmúrios pairava no ar. Falha no computador? ‘Já tentou apertar a teclas ‘Contr+Alt+Del’ e reiniciar a geringonça’? Qual a implicação de uma falha no computador na aterrisagem? Por que o Santos Dumont não era seguro para receber um avião com uma ‘falha no computador’? O silêncio da tripulação, acomodada estaticamente nos seus assentos, sem qualquer movimentação à vista, tampouco ajudava nas respostas.

Os minutos passavam, longuíssimos, o avião não embicava para baixo e seguia sobrevoando a cidade, no que aparentava ser um vôo de cruzeiro. Não havia pânico na cabine, mas a sensação de mal-estar era perceptível. Será que foi resolvida a ‘falha no computador’? Os passageiros manuseavam as revistas de bordo com mais velocidade e menos atenção. Uma pequena fila formava-se ao redor dos ‘toilletes’. As explicações da tripulação eram inúteis: ‘Procedimento padrão’. Nem eles sabiam o que estava acontecendo.

O comandante, o único ciente do signficado da tal ‘falha no computador’ (além do co-piloto), bem que poderia nos atualizar a respeito do assunto. ‘Apertei um ‘enter’ e resolvemos o problema!’. Ou então: ‘Calma pessoal, não se aflijam. Tudo vai dar certo!’. Mas, não. O silêncio dos alto-falantes  ‘ecoava’ na imaginação catastrofista de muitos passageiros. Painéis com acidentes aéreos recentes surgiam nos mapas mentais de muita gente, que se esforçavam para removê-los tão logo eles apontassem, através de uma oração desencontrada ou uma leitura ‘dinâmica e confusa’ sobre qualquer coisa que tivesse frases.

Em outros tempos, eu encarava os perrengues aeronáuticos com serenidade. Após a paternidade, tudo mudou. Hoje, turbulências me incomodam muito, tanto quanto ‘trancos’ na descida. Tranquilidade plena somente quando percebo a frenagem do avião reduzindo sua velocidade na pista. E a tal falha no computador me deixou bastante inquieto. Ao meu lado, um passageiro dormia profundamente. Eu, que normalmente consigo dormir até em pé, não preguei o olho naquele dia, para meu infortúnio.

‘Se o avião vai descer no Galeão e o tempo está bom, é por que a pista do Santos Dumont não é extensa o suficiente. Está gastando combustível para pousar de barriga, e o piloto não quis dizer isso a nós.’ Essa era a minha hipótese.

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O desesperador silêncio do comandante, que após meia hora nada mais disse a respeito da falha no computador, fazia com que essa teoria ganhasse contornos de realidade dentro da minha cabeça. Eu me preparava psicologicamente para o pouso de barriga. Lembrei-me que em 1985 meus pais experimentaram uma situação semelhante em Campo Grande/MS. ‘Não há de ser nada’. Eu não parava quieto na poltrona e invejava meu colega dorminhoco ao lado.

De repente, ouve-se o ruído tradicional que antecede a conversa do piloto.  O comandante finalmente daria o ar de sua graça. E o que ele teria para dizer? As frações de segundo que nos separavam do início da mensagem eram faíscas de alta tensão na mente de todos nós, pelo menos dos que estavam despertos. ‘Será que ele anunciará um pouso de emergência?’.

‘Tripulação, preparar para o pouso’. E foi só. Ouvimos a abertura do trem de pouso. As duas turbinas funcionavam. Tudo parecia normal. Felizmente, minha teoria ia por água abaixo. ‘De barriga, não será!’. Pousamos. Frenagem normal. Ufa….! Tão logo o avião se aprumava para estacionar, o comandante finalmente desabafou: ‘Caros passageiros, tivemos um inconveniente: o computador de bordo não identificou o funcionamento do trem de pouso. Nessas circunstâncias, não havia outra alternativa senão nos dirigirmos à pista do Galeão. Felizmente, foi uma falha técnica do computador, pois o trem de pouso funcionou perfeitamente, como vocês puderam perceber’. Fato: minha teoria tinha lá um fundo de verdade…

Na saída, aeromoça e comandante alinhados, despedindo-se dos passageiros com aquele ar de ‘até que enfim’. Não resisti, e ainda envolvido pelas sensações emocionantes da última meia hora, perguntei à ela:

‘E aí, deu para sentir medo?’

Ela prontamente respondeu, com um sorriso no rosto:

‘Não, que nada. Tudo normal, sem problemas. Estamos acostumadas!’ E foi imediatamente interrompida pelo comandante, que em uma explosão de sinceridade, me afirmou assertivamente, sem maiores delongas:

‘Eu….ME BORREI!!!!!’

Entendi então o silêncio dos alto-falantes naqueles últimos e intermináveis minutos de viagem,  me arrependi por tê-lo julgado mal e agradeci o fato do comandante fazer a opção por ‘borrar-se sozinho’. Como foi bom pisar no chão…!

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2 Comments
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2 Comentários

  1. Pedro Moral

    2 de junho de 2013 em 11:46

    Na boa, era o prenúncio do que estava por vir em termos futebolísticos.

    Na semana seguinte, seria o Diego Souza a se borrar …

    Abraço!
    pdmoral

  2. Cristina Maravilhas

    17 de agosto de 2014 em 09:37

    Eh amigo, ja passei por isso. Voltando de SP (Minhas reunioes semanais com a area de credito….) ja eram 19 horas e o aviao ja se preparava para aterrizar no Santos Dumond quando de repente o aviso arremete ja bem proximo da pista. Cara, que dor de barriga que me deu. O piloto pediu desculpas pelo incoveniente mas que o temporal em cima do aeroporto nao permitia a descida. Caramba ele nao sabia disso antes? Por que nao foi logo para o Galeao? O comandante entao ficou rodando em cima de Macae por 40 minutos esperando o temporal passar. Apos os 40 minutos ele nos comunica que ” Eh… nao temos outra opcao senao ir para o Galeao… pois o combustivel esta acabando….”

    Beijos,

    Cristina.

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