Berço da civilização…e da cachorrada

Durante quase seis anos, quando experimentei um estilo de vida ‘cigano-corporativo’, tive a oportunidade de viver em três países bem distintos e visitar com frequência mais de uma dezena de outros. Quando me deparo com a pergunta sobre qual é minha cidade preferida, minha resposta é dupla: Londres como morador e Roma como turista. Somente vivendo em um lugar o sujeito é capaz de identificar alguns detalhes que passam completamente desapercebidos aos olhos do mais observador dos turistas. A cidade que você visita por alguns dias, com o ânimo estimulado pelo clima de férias, esconde segredos que ela somente lhe revelará em caso de um compromisso mais sério, tendo-o como habitante permanente.

Atenas, por exemplo, é uma cidade diferente, pitoresca aos olhos de quem a visita por três dias. Da Acropolis, a vista da imensidão de construções baixas, em tonalidades claras, em um emaranhado urbano que escala as inúmeras montanhas de solo pedregoso ao norte e vai até a beira do mar Mediterrâneo ao sul, constituem uma novidade. Não se trata da típica cidade européia. O turista que bate perna por Plaka, bairro histórico que circunda o sítio arqueológico mais imponente do Ocidente, se encantará com as ruas estreitas, as inúmeras lojinhas repletas de quinquilharias, e as incontáveis tavernas que servem o tradicional e saborosíssimo sanduíche local, o ‘svoulaki’. De Plaka para a ‘Syntagma Square’, praça onde se localiza o parlamento e de onde partem as grandes manifestações populares, é um pulo. Também nas cercanias está o bairro de Kolonaki, na base do Monte Licabetus, uma espécie de ‘Jardins’ ateniense, assim como o antigo estádio olímpico, onde se encerraram as olímpiadas de 2004. Enfim, imenso material exploratório para turistas que se deleitam em gastar a sola do sapato. Isso sem contar a região sul, margeando o mar, a 35 quilômetros de distância dos sofisticados bairros de Kifisia e Ecali, ao norte, aos pés das montanhas. Mas que segredos esconde a milenar capital grega dos olhos desavisados dos milhões de turistas que a visitam anualmente?

Poderia mencionar a predileção dos atenienses por cafés, normalmente servidos gelados, em porções gigantescamente americanas, em qualquer calçada de bar. É possível espreitá-los por horas a fio jogando conversa fora, acompanhados dos variados frapês cafeinados e usualmente de uma cigarrilha. A Grécia é o segundo país em fumantes per capita na Europa, atrás somente de Portugal.  Também chama atenção a imensa quantidade de óculos escuros. Um grego normal não sai de casa sem eles. Compreensível em um país onde o sol brilha pelo menos durante uns nove meses do ano. E no caso feminino, a obsessão por botas, o que pode ser um problema para a turista com pouco espaço na mala. Todas essas características não são triviais, mas um bom observador é capaz de percebê-las, mesmo em poucos dias.

Surpreendente, mas divulgado em qualquer roteiro de viagens, são os táxis coletivos. Eu desconhecia a prática em meu primeiro mês de Atenas, e quando tomei um deles no centro da cidade para ir rumo ao norte, estranhei quando o taxista parou para recolher mais um passageiro. Pensei que fosse um amigo ou conhecido dele. O sujeito sentou-se ao meu lado, no banco de trás. Um quilômetro adiante, entra mais um. Agora no banco da frente. Seria muita coincidência dois amigos em um raio de poucos quilômetros. E eles não pareciam se conhecer, pois não interagiam entre si. A ficha caiu quando um quarto passageiro quase entrou. Só não o fez por que de certo o destino estava fora de mão. E assim percebi que táxi em Atenas é quase como um ‘lotação’. Entra passageiro ao gosto do taxista, sem desconto algum na viagem!

O grande segredo de Atenas é a quantidade anormal de cães nas ruas. Não os imaginem como vira-latas franzinos e com baixa auto-estima. São muitas vezes cachorros de raça e normalmente bem alimentados, altivos, com latido robusto. Não estaria sendo impreciso se ousasse dizer que há um desses a cada quadra. E eles devem se considerar os descendentes do cachorro de Sócrates, pois comportam-se como os donos da rua. Um belo dia eu presencei um deles morder a bunda de um tiozinho em uma praça movimentada do bairro de Kifisia. Quando avistei outro refestelado diante da porta de um hotel cinco-estrelas em Syntagma Square, sem que os porteiros o importunassem, eu concluí que os cães em Atenas, mesmo os ditos vira-latas, são mais afortunados que a maioria das pessoas comuns. Devem ter carta branca da prefeitura para ir e vir, por onde desejarem.

Senti o poder da autoridade greco-canina quando exercitava minha então prática comum de corrida urbana, que cultivei com frequência pelas avenidas planas e desprovidas de vira-latas em Miami. Em Atenas, escolhia um circuito sem inclinações, na região residencial em que morava, e o repetia por uma hora. Quando cruzava com um cachorro de rua, parava de correr e simulava uma caminhada rápida, evitando assim que o cão latisse e partisse em minha direção, atitude que Sua Majestade canina sempre tomava contra aqueles que se aventuravam em correr diante de si. Era assim com qualquer cachorro. Passou na frente de um deles, desacelerava o passo e caminhava. Rídiculo, mas necessário.

Eis que em um final de tarde, corria em um circuito já conhecido, próximo à minha casa, no qual havia um cão antipático na esquina de uma das quadras, tomando conta da rua. Já adaptado ao ‘sistema’, passava diante dele caminhando e à medida que se afastava, acelerava o passo e retomava a corrida. Porém, pouco depois do crepúsculo, já no breu do anoitecer, me distraí. Passei na esquina correndo, entretido pelas músicas do ipod. Fui interrompido não somente por um, mas por quatro cães! O dono da esquina comandava a convenção e latia furiosamente em minha direção. Os outros três comparsas o acompanhavam, e uma sinfonia aterrorizante de latidos me fez suar frio. Um casal de velhinhos, que caminhava a cinquenta metros de distância, virou as costas e retornou. Seguramente sem estômago para presenciar a cena que poderia se converter em uma chacina. A minha. Lamentei a ausência de companhia humana, mas entendi a decisão dos velhinhos.

Estava agora diante de quatro cachorros vorazes, que avançavam cautelosamente em minha direção. Sim, eles estavam cautelosos, pois à medida que eu ameaçava partir para cima deles (um blefe, obviamente), eles refugavam em dois ou três passos. Assim, eu ganhava tempo para vagarosamente caminhar para trás. Estava a uma distância de uns cinco metros da matilha, e se eu corresse naquele situação, eles iriam no meu encalço. Não havia ninguém na rua e eu facilmente seria gravemente ferido. Sim, minha vida estava ameaçada por um bando de vira-latas! A tensão aumentava e eu seguia com a minha estratégia de ameaçar avançar e retroceder. Em algum momento, abriria distância suficiente da cachorrada para bater em retirada, correndo. Meus oponentes, incansáveis, seguiam latindo, mas receosos de se lançarem ao ataque. Nenhhuma das partes pretendia dar o primeiro passo rumo à guerra total. Se eu encontrasse um pedaço de pau ou pedra, me sentiria mais protegido, mas estava desguarnecido de qualquer dispositivo de defesa, a não ser minha voz preparada para gritar. Felizmente, meu procedimento ‘avança e recua’ começou a dar resultado. Minha distância para a matilha aumentou uns dez metros, mais um pouco e eu poderia ‘dar no pé’.

E aconteceu. Depois de alguns minutos de embate psicológico entre os cães e eu, consegui abrir espaço suficiente para acelerar o passo. Deu certo. Aprendi também que a cachorrada não atua fora da sua ‘jurisdição’. Alguns passos mais e protagonizei um pique digno de Usain Bolt. Cheguei em casa pouco depois, suando frio, pálido e com pontadas na barriga. Se fosse no Brasil, diriam que havia sido assaltado.

O impacto foi quase o mesmo. Ameaçado de morte por quatro vira-latas gregos. Daquele dia em diante, abandonei as corridas urbanas na Grécia, hábito que somente retomei em Londres. E tomei conhecimento que Atenas é o berço da civilização ocidental…e da cachorrada.

3 Comments
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3 Comentários

  1. sonia pedrosa

    8 de outubro de 2012 em 09:35

    Concordo com vc, Victor. Uma coisa é visitar uma cidade. Outra é morar. Aí, sim, dá para falar alguma coisa. Quando viajo, escolho uma ou duas cidades, apenas. Gosto de ficar, pelo menos, 6 dias em cada uma, para perceber o movimento.

  2. Rose May Gaspar

    27 de julho de 2013 em 12:35

    Divertido e assustador! Turistas deveriam saber desses detalhes. Muitas vezes, onde morava, presenciei executivos e turistas praticando jogging logo cedo, pela manhã. Em Atenas este hábito pode ser um problema.

  3. Sandra Bernardo

    8 de julho de 2015 em 10:38

    Delicioso texto Victor. Não sabia deste seu lado Blogger. Parabéns.

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