As armadilhas da inércia ativa

‘ Em geral, reagimos a um período de turbulência acelerando atividades que funcionavam no passado. Ficamos inertes quando deveríamos nos adaptar com agilidade e nos apegamos a rígidos dogmas quando deveríamos improvisar. Entretanto, ao longo da história, a volatilidade não somente destronou líderes constituídos, como também criou possibilidades inusitadas para agregar valor econômico. A turbulência tem um lado positivo e as empresas que agarrarem as oportunidades oferecidas por esses mercados agitados serão as campeãs do futuro’.  Donald Sull, em ‘O lado bom dos tempos difíceis’, Editora Campus

Dentre os inúmeros conceitos interessantes abordados no livro acima, do autor que é blogueiro da revista ‘The Economist’ e professor da London Business School, me chamou atenção o da inércia ativa, tendência que as organizações possuem de reagir às mudanças acelerando atividades que foram bem sucedidas no passado. Se olharmos ao redor e buscarmos exemplos históricos no mundo corporativo e nas próprias políticas de governo, constataremos que trata-se de uma armadilha comum.

Nessas situações, o inusitado normalmente exige respostas diferentes daquelas que foram bem-sucedidas no passado. Como isso geralmente não é percebido, a intensa movimentação para retomar o sucesso anterior gera uma percepção de atividade e de que a turbulência está sendo desafiada adequadamente. Como dessa vez o bom resultado não se repetirá, tem-se a impressão, após a evidência do fracasso, de que nada foi feito (inércia), quando na realidade, houve uma concentração de esforços na direção errada (ativa).

No mundo corporativo, a turbulência não aparece somente através de uma crise econômica, que por si só não gera a necessidade de respostas criativas, e sim ortodoxas, dado que uma vez terminada, a normalidade é reestabelecida. Mudanças regulatórias, o surgimento de novos canais de distribuição, outrora inexistentes, a substituição de um produto por outro, a chegada de consumidores com perfil completamente distinto através da mobilidade social, a ameaça de concorrentes externos antes incapazes de atuar em um determinado mercado, são todos elementos que podem desestabilizar completamente o funcionamento usual de uma indústria ou segmento de negócio.

Quem se lembra da sua marca de telefone celular utilizada há dez anos? Seguramente foi substituída por um ‘smartphone’ ou similar. Quem diria que os celulares, além de suas funções corriqueiras, iriam também assumir as tarefas de conectividade, música, vídeo e games, tudo em um único aparelho? E se você retrocedesse outros dez anos, praticamente não encontraria telefone celular,  os poucos existentes estavam mais para tijolões que exigiam contorcionismo do usuário para obter um sinal. Eis um exemplo de indústria onde tudo mudou mais de uma vez em duas décadas e quem repetiu a receita de sucesso experimentada no momento anterior, fracassou.

Vivemos em tempos alucinantes. Daqui a cem anos, essa época será lembrada como a mais revolucionária da história da humanidade, com transformações tecnológicas tão impactantes quanto aquelas experimentadas durante o período da revolução industrial, que esparramou suas inovações pelo planeta ao longo de quase um século (entre XVIII e XIX). A diferença é que vivenciamos mudanças de mesma intensidade ao longo das últimas duas, não mais que três décadas. E não há indicações de que haja qualquer arrefecimento no ritmo do progresso. Se o mundo hoje não tem nada a ver com aquele em que vivemos há trinta anos, imagine como será daqui a outros trinta…

É nesse contexto de intensas transformações que a inércia ativa torna-se uma armadilha usual nas corporações e aliada à arrogância decorrente de um sucesso aparentemente contínuo, pode arruinar em definitivo o futuro de uma empresa. Fazer melhor o que já se faz relativamente bem não é solução para problemas que exigem uma ruptura com o padrão usual. Ganhos de produtividade nunca serão infinitos e em algum momento, somente uma solução que seja completamente alheia à normalidade é capaz de alterar radicalmente um resultado comum. Com um esforço hercúleo, uma empresa consegue melhorar seu resultado em 10-15%. Somente rompendo com paradigmas e inovando completamente a maneira de trabalhar é que atinge-se um incremento muito maior.

Estados também são prisioneiros da inércia ativa. Um exemplo disso, já mencionado em texto anterior, é a insistência do governo brasileiro em resolver o problema atual da quase estagnação econômica através de um exasperado incentivo ao consumo, muito exitoso na década passada, mas que não pode mais ser a solução mágica para uma população já bastante endividada. Infelizmente, a constatação sobre a irrelevância dos esforços oriundos da inércia ativa não é imediata. Quando finalmente nos damos conta de que o remédio é inócuo, o ‘bonde da oportunidade’ já terá passado…

Para evitar essa ruinosa armadilha, devemos estar sempre vigilantes em relação a alguns comportamentos: precisamos de humildade para aceitar que mesmo extremamente bem sucedida em passado recente, a fórmula que nos levou ao sucesso pode se tornar inócua rapidamente. Foi-se o tempo em que existiam ‘vacas sagradas’.  Precisamos estar dispostos a destruir algo que já deu certo e reconstruí-lo de maneira completamente diferente. Muitas vezes essa prática é tão difícil que somente modificando a equipe principal é possível executá-la. E finalmente, não podemos subestimar a nossa capacidade de improvisação, pois ela é o combustível que permite que o espírito inovador renasça todos os dias. Para enfrentar desafios anormais, na maioria das vezes decisões normais são dispensáveis. Precisamos arejar a nossa mente, mantendo aberta a janela da inovação, do contrário, em um mundo de transformações contínuas e agudas, é alto o risco de nos tornarmos obsoletos.

4 Comments
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4 Comentários

  1. Nardy

    9 de junho de 2012 em 12:02

    Não somos infalíveis, mas nossos colegas lá do hemisfério norte são experts em criar procedimentos para “proliferar o sucesso” que foi conseguido no passado. E haja argumentos para quebrar a barreira arrogante que protege a “vaca sagrada” de ser retreinada… Matar a vaca então? Heresia pura!

    1. Victor

      9 de junho de 2012 em 14:58

      Nardy,
      Parece até que trabalhamos no mesmo lugar!!!
      Tem vaca que nunca experimentará a glória de se transformar em jma suculenta picanha! 🙂
      Abs,
      Victor

  2. Sergio

    9 de junho de 2012 em 19:12

    O ponto é sem dúvida importante – quiçá vital – para a vida profissional de uma empresa ou de um individuo… entretanto o que parece obvio em palavras torna-se muito complicado na pratica: aplicar isso exige um certo “comportamento de vigília continua” que se mostra difícil, seja porque o dia a dia é corrido e apagar incêndios com receitas prontas parece – observe que usei o termo “parece” – mais produtivo, seja por certa comodidade de tentar o novo (seguindo o velho ditado “em time que está ganhando não se mexe”), ou seja por qualquer outro motivo que traga tal miopia. Acredito que só mudando a rotina se consiga exercitar este movimento “inovativo”. Há poucos dias tive a oportunidade de participar de um “mini-town hall” com um alto executivo que disse que seu tempo de trabalho se dividia em 3 partes: 15 a 20% para resolver problemas; 15 a 20% para evitar problemas futuros e o “resto”(ou seja, mais da metade) para uma espécie de reengenharia: repensar como fazer melhor e mais eficiente. Por isso reforço o texto com a frase: cultivar o hábito é o que fará a diferença! Abcs

    1. Victor

      9 de junho de 2012 em 23:30

      Sergio, concordo com você, não é fácil. Somos programados para repetir o que deu certo. Só que uma hora, não dará mais certo….Felizmente, momentos de turbulência não acontecem a todo momento!!! Grande abs,

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