O infiltrado – Parte II ‘Experiências inesquecíveis no berço da civilização ocidental’

Quando dizia que morava na Grécia, geralmente meu  interlocutor suspirava, imaginando as paisagens idílicas das suas mais de cem ilhas habitadas com as famosas ensolaradas casas brancas de telhados azuis.  Esquecia que quase 50% da população grega reside em Atenas, metrópole com mais de 4 milhões de pessoas, espalhada entre o mar Mediterrâneo ao sul, e as montanhas Penteli ao norte, e que eu certamente vivia lá.

Atenas, berço da civilização ocidental, com a Acrópolis reluzente em seu ponto mais alto, ruas estreitas, prédios baixos e com varandas, trânsito caótico, de dar inveja ao paulistano. Cidade grande, menor somente que Paris entre os países do Mediterrâneo. Cidade segura, pelo menos no período de prosperidade que antecedeu ao cataclisma financeiro de 2008, a segunda mais segura da Europa. Cidade ensolarada, com tempo bom durante pelo menos 8-9 meses do ano. Cidade árida, onde quase não se percebe a presença de grama, tão comum no norte da Europa. Cidade provinciana, onde ainda se reserva tempo para ‘sesta’ pós-almoço, com mercadinhos e lojas de bairro fechando suas portas em alguns dias da semana, das 14 às 17 horas. Cidade onde o consumo per capita de café, cigarro e óculos escuros deve ser um dos maiores do planeta. Cidade feia, longe de lembrar os tradicionais cenários urbanos da Europa. Feia e caótica. Um contraste com a imagem mental que qualquer pessoa faz da Grécia.

Ao visitar um lugar, deve se ter em mente que a perspectiva de um turista é diferente daquela de seu morador. Atenas em três dias é ótima. Pitoresca, histórica, diferente, com bons restaurantes e excelente comida. Atenas para sempre é difícil, principalmente para um estrangeiro. No dia seguinte à chegada definitiva da minha família em Atenas,  em Janeiro de 2006, fomos recepcionados com a maior nevasca que se teve notícia até então, no século XXI. Mais de um metro e meio de neve cobriam as amplas varandas do apartamento em que morávamos. Como a cidade não está acostumada a esse tipo de evento metereológico, foi o caos. Difícil explicar que vivendo na Grécia  das ilhas paradisíacas, logo no primeiro dia experimentamos uma nevasca digna do inverno nova-iorquino…nem tudo é o que parece ser…

O grego em geral é reservado. Seu espírito festivo manifesta-se em ocasiões privadas. É desconfiado em relação à presença de estrangeiros, principalmente aqueles oriundos de países ricos. A ladainha do ‘mal imperialista’, conversa fiada comum nos países periféricos, também é ouvida por lá. Os brasileiros são geralmente bem recebidos. O futebol, esporte mais popular do mundo, é uma espécie de cola que une culturas diferentes. Trata-se de um impressionante ‘quebra-gelo’ para quase qualquer tipo de situação. Loucos por crianças, os gregos despem-se da usual  ‘reserva’ quando elas estão por perto. Sorriem, brincam, apertam e beijam-nas. Fazem corar os anglo-saxões e nórdicos, para quem a distância física é protocolarmente seguida, mesmo na presença de pimpolhos. Crianças e futebol: os melhores ‘quebra-gelos’ para inserção social na Grécia!

À primeira vista, os gregos podem parecer rudes, mal educados até. Falam alto e são loucos por uma boa discussão. Essa é a impressão que se tem após algumas semanas de convívio. Recordo-me que os altos decibéis que ecoavam na sala de reuniões do meu andar, no escritório, chegavam a me assustar:

‘Por que vocês estavam brigando?’

‘Não estávamos brigando! ‘

‘Não! Mas como, e aquela discussão?’

‘Não era discussão, era uma reunião de trabalho normal’.

Demorou um tempo até eu me acostumar.

Aliás, a experiência mais genuinamente grega que eu tive se deu em uma viagem no metrô ateniense. Para ir ao trabalho, eu tomava um táxi e em 5 minutos estava na estação ‘Kifisia’, a primeira do norte da cidade, e de lá eram 35 minutos até o centro, onde trabalhava. Um belo dia, voltando para casa, já à noite, dois sujeitos discutiam calorosamente no vagão onde eu estava. ‘Mais uma discussão grega’, pensei. O embate seguiu firme por mais um par de estações, ganhando em vigor, com dedo em riste de ambas as partes. ‘Em terras latinas, já teriam ido às vias de fato’. Seguia entretido com minha leitura, quando percebi que outros passageiros entraram na discussão, cada qual emitindo sua opinião, em alto e bom som. À medida que o tempo passava, a confusão ganhava mais corpo. Eram mais de dez pessoas participando da peleja, sem contato físico, mas com muita gritaria. Nessa hora, lamentava não falar grego. Não entendia bulhufas.  Não sabia do que se tratava a confusão. O auge se deu quando uma senhora, já idosa, sentada ao meu lado, levantou-se e disse uma dúzia de palavras, enfurecida. Enquanto isso, os dois protagonistas seguiam em sua batalha verbal. Confesso que eu quase me levantei também, pensei em gritar em português um ‘PQP’ só para ver as consequências. A turma não ia entender nada, mas seria engraçado. Contive-me. Vai que um estrangeiro não é bem-vindo em uma discussão caseira…a contenda continuou, até que um policial entrou no trem. ‘Vai colocar os dois em cana’, pensei. Que nada! Trocou umas palavrinhas com ambos– a essa altura eu os classificaria como debatedores – e saiu. Os protagonistas seguiram discutindo por mais uma ou duas estações e de repente…acabou. Silêncio. Todos os passageiros que haviam participado da balbúrdia agora permaneciam calados, como se nada tivesse acontecido. Um dos briguentos saiu em uma estação, o outro foi na seguinte. Esse é um dos mistérios que levarei comigo até o fim dos meus dias: qual teria sido a razão daquela discussão, que entreteve um vagão de metrô por quase 30 minutos naquele dia? Catarse coletiva? Hobby? Esporte nacional? Não sei. Nunca saberei. Mas tenho certeza de que fui brindado com uma imersão na ‘psique’ coletiva da sociedade grega.

O idioma é uma barreira transponível na convivência diária. Não por que seja fácil de aprender. Muito pelo contrário, é dificílimo. É transponível por que o sujeito pode valer-se do inglês para safar-se da maioria das situações complicadas. Dos países do mediterrâneo, a Grécia deve ser aquele de maior proficiência em inglês. Também, pudera – somente 20 milhões de pessoas no mundo falam grego: os moradores da Grécia, os gregos no estrangeiro (quase equivalentes em número aos que moram na terra-mãe) e os cipriotas. É inconcebível para a população mais jovem ser monoglota.

No trabalho, por exemplo, 95% das pessoas falavam ao menos o inglês básico. A maioria da comunicação por email já era feita em inglês, imagino que pela dificuldade em acessar o alfabeto grego nos teclados, ou mesmo pela praticidade da idioma anglo-saxão. Eu, como único estrangeiro e vindo de terras tão longínquas, era praticamente um alienígena, mas que despertava uma simpatia inicial, somente pelo fato de ser brasileiro. Não era um imperialista americano ou britânico, e isso contava a meu favor. Confesso que tentei aprender grego. Tive aulas particulares. Mas nesse caso, venceu o comodismo. Para que aprender grego? Estava lá de passagem, e não utilizaria o idioma em outras cercanias. Cheguei a ter uma fluência equivalente ao de uma criança de três anos. Ou seja, conseguia um diálogo básico com taxistas, porteiros, e outros profissionais com quem se exige uma conversação superficial. Não mais que isso. Só que meu momento mais ‘glorioso’ na Grécia se deu falando grego…

Era a convenção anual do banco, em Fevereiro/06. Uma tarde em que a maioria dos funcionários era convocada para uma reunião em um hotel, onde se discutiriam os resultados e as prioridades do ano.  Em uma parte do evento, cada diretor apresentava por 5-10 minutos o que seriam os principais objetivos e desafios de sua área. Esperava-se que eu o fizesse em inglês. Na noite anterior, solicitei à duas funcionárias que traduzissem para o grego (em caracteres latinos) aquilo que eu planejara falar. Eu pedi que elas lessem, de modo que eu captasse a sílaba tônica em cada palavra, que marquei no papel, cheio de anotações. Treinei em casa por muitas horas. Após pouco mais de um mês na Grécia, ninguém imaginava que eu me aventuraria a fazer uma apresentação para 800 pessoas,  em grego. Os diretores estavam em uma mesa, no centro do palco, diante da plateia, de algumas centenas, que prestava atenção, silenciosa. Aplausos protocolares para cada ‘apresentador’. Fui o quarto ou quinto a falar, de um total de dez pessoas. Confesso que o frio na barriga foi aumentando, conforme se aproximava a minha vez. Nervoso não era a palavra certa. Ansioso. Extremamente ansioso, as mãos chegavam a suar. Era a maior audiência para a qual eu iria apresentar até aquele momento de minha carreira, e iria fazê-lo…em grego.

Quando fiz a introdução, já recebi uma salva de palmas consistente. ‘Sinal de respeito ao idioma’, deve ter pensado a maioria. Foi quando surpreendi a todos, continuando em grego. Quando a platéia percebeu que eu iria fazer toda a apresentação no seu idioma, foi à loucura. Fui veementemente aplaudido toda vez que engasgava, voltava atrás e corrigia a frase. Isso aconteceu umas quatro vezes. Ao final da minha breve apresentação, fui praticamente ovacionado. Tive o meu momento ‘popstar’, que dificilmente se repetirá em vida. Logo na sequência da minha apresentação, foi a vez da Diretora de Tecnologia, uma greco-americana, que nos três anos anteriores havia apresentando em inglês, no mesmo evento, por não se sentir plenamente confortável com o idioma local. Naquele ano, ela fez em grego. Ao final, fui efusivamente cumprimentado por muitos…mas não conseguia retribuir a gentileza conversando em grego. Conforme eu disse, tinha condições de travar um bom diálogo com uma criança de três anos…

De qualquer maneira, se havia no ar uma boa pré-disposição pela minha origem latina e brasileira, ela se acentuou depois  da minha ousadia naquele evento. Mas não avancei muito depois daquilo. Durante o tempo em que estive na Grécia, todas as reuniões em que participei foram feitas em inglês, somente pela minha presença. Em muitas ocasiões, eram várias pessoas na sala, e nem por isso havia resistência em fazê-la em outro idioma, para o meu engajamento. Dificilmente encontro esse nível de elegância corporativa em outros lugares. Os gregos, tidos como rudes e briguentos, foram extremamente gentis e pacientes comigo. Se transponho uma situação similar para o Brasil, posso afirmar sem medo de errar, que é impossível que algo assim ocorra por aqui. Aliás, tenho exemplos similares onde trabalho, e os estrangeiros tem que se virar. Nada de falar em inglês por conta de uma pessoa só…

A burocracia e a esculhambação na Grécia lembram o Brasil. As delegacias de polícia também servem como uma espécie de cartório, onde as pessoas reconhecem ‘firma’ e outros temas similares. Cansei de ‘pegar fila’ nas delegacias. Para obter o visto definitivo, o estrangeiro precisa passar por uma via crucis de exames, incluindo um de tuberculose. Passei horas em filas de hospital público. Eu contei: para ser mais exato, perdi quatorze horas nessa brincadeira. Não me impressionei com o serviço de saúde. O de telefonia fixa é monopólio estatal e por conta disso, de qualidade ruim. Foram dois meses para instalar uma linha em casa. Após quatro visitas de funcionários da OTE, nada acontecia. Pedi ajuda aos tecnólogos do banco onde eu trabalhava.

‘Você deu propina aos funcionários da OTE? ‘

‘Propina? Como assim? Pagar por fora? ‘

‘Isso. Ninguém te avisou? ‘

‘Não. Eu não sabia’

‘Se você não der uma ‘caixinha’ aos funcionários da OTE, eles não fazem a última conexão da rua até a sua casa’

‘…!!!!!…’

A Internet em banda larga veio dois meses depois da linha telefônica fixa, com muita luta e muitas horas na central de atendimento. Tudo bem que há seis anos, essas áreas ainda não eram tão desenvolvidas quanto hoje, mas mesmo em comparação com o Brasil da época, esses serviços eram infinitamente piores do que experimentávamos por aqui. O mesmo não se pode dizer da telefonia celular, longe das garras gordas e preguiçosas do estado, bastante eficiente já naqueles tempos. Foi fácil obter nossas linhas na Vodafone.

Por razões óbvias, assistir TV era impossível. O que foi uma pena, pois tal qual no metrô ou no trânsito, havia muitos ‘barracos’. O  mais hilariante era um programa jornalístico onde se abriam seis sub-telas, com pessoas diferentes palpitando sobre um determinado assunto, em cada uma delas. Frequentemente, todos acabavam falando ao mesmo tempo. A produção do Ratinho, Datena e outros congêneres devia fazer um estágio na Grécia, voltariam com muitas novidades. A dependência da TV a cabo acabava nos isolando ainda mais de uma vida genuinamente grega. A facilidade com que se leva a vida falando em inglês também gera um efeito colateral complicado: como a pessoa não se sente estimulada a aprender o idioma local, fica afastada do dia a dia, não lê jornais, revistas ou assiste a programas de TV. Não assimila uma experiência plenamente grega…

Minhas lembranças remontam a um tempo em que a Europa vivia a euforia do crescimento, da prosperidade. Ideias novas e oportunidades de investimento surgiam por todos os lados, e a Grécia era uma das estrelas da periferia, recém saída das Olímpiadas de Atenas e com índices de crescimento dos mais pujantes do continente. Seu PIB per capita se aproximava do espanhol e não estava tão distante dos vizinhos mais ricos do norte. Era até estranho vivenciar toda aquela ‘riqueza’ em meio a um ambiente tão bagunçado, muito próximo, por que não dizer, do terceiro mundo por quem os gregos tanto nutriam uma simpatia velada.

Hoje constata-se que a prosperidade de outrora foi construída sobre pilares pouco consistentes, causando o desmonoramento da economia e uma crise profunda que colocou o país em recessão pelos últimos quatro anos, ainda o início de uma longa jornada de dificuldades, que certamente se estenderá por muito tempo. Os gregos, tão afeitos à manifestações e passeatas, vivem seu pior momento desde a ocupação alemã na Segunda Guerra  Mundial.

Mas, lendo a situação por outro ângulo, mesmo sob a contínua turbulência dos últimos anos, a Grécia ainda apresenta um PIB/capita de US$ 27.000, quase três vezes maior que o brasileiro, hoje próximo a US$ 11.000. Não fosse a crise pós-2008, esse indicador estaria beirando os US$ 40.000. Ou seja, o dia em que começar sua recuperação, partirá de um patamar já elevado, que o Brasil, por mais que tenha recebido toneladas de confetes em passado recente, ainda está bem longe de atingir.

Não tenho dúvidas que o país que eu descrevi, hoje é outro. A desgraça  financeira apunhalou a auto-estima grega e a sociedade atravessa um período de transformação radical. Porém, uma característica seguramente não mudou: o país continua belíssimo. A própria crise atual configura uma situação favorável ao turismo estrangeiro: viajar pela Grécia está muito mais barato e vale a pena considerar nos seus planos futuros de viagem uma bela temporada em uma ou duas ilhas gregas. Para quem tem tempo$ disponíveis, uma ótima pedida.

As fotos que ilustram esse texto são das ilhas de Zakhyntos, Santorini, Corfu, Creta e Kos. De quebra, uma paisagem interiorana, em Meteora (abaixo), simplesmente espetacular. Aspectos turísticos da Grécia serão compartilhados nos próximos textos da série…

 

 

5 Comments
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5 Comentários

  1. Marina Kyriaki

    27 de maio de 2012 em 02:32

    I wasn’t there for that speech but people still talk about it you know! Thank you for the rest…Outside the chaos, the economic crisis, the corrupt politicians, Greece is truly a little paradise on earth….

    1. Victor

      27 de maio de 2012 em 03:00

      Marina, you are doing quite well reading in Portuguese! It deserves a visit from you to the south tropics. São Paulo deserves two-three days, like Athens…a bit chaotic and somehow ugly but vibrant. But all the rest deserves a month….when? 🙂

  2. Daniela Z

    28 de maio de 2012 em 00:31

    Crianças e futebol: os melhores ‘quebra-gelos’ para inserção social na Grécia!
    Vc esqueceu incluir a dança! 😀 Nunca esteve em um lugar em que a dança tradicional seja tão cotidiana e presente em todos os níveis da sociedade.

    1. Victor

      28 de maio de 2012 em 01:48

      É verdade, Daniela!
      O único limitador é que não é possível sair dançando em qq ocasião! 🙂
      Abs

  3. sonia pedrosa

    30 de maio de 2012 em 23:33

    Estive na Grécia há alguns anos e não me iludi, penso como você: maravilhosa para passar férias, passear, visitar aquelas ilhas lindas…mas morar é mais complicado. Nesse caso, vale o bom humor e a vontade de aproveitar a oportunidade. O trânsito é uma loucura, mesmo… e os taxis, muito engraçados, parando pra todos enquanto tem lugar. Adorei a música! E aquele mar de azul inacreditável e gelado…Quero voltar lá, conhecer outras ilhas. Mas, de férias!

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