Você está feliz com seu trabalho?

Considere que você passa pelo menos umas 10 horas por dia transitando ao redor do seu ambiente de trabalho. Mesmo que sua atividade seja dinâmica e não esteja circunscrita a um único local, no mínimo é essa quantidade de tempo que você dedica a assuntos laborais. Se for menos, ótimo; você faz parte de um seleto grupo de aposentados ou afortunados pela renda financeira. Mas se a descrição acima confere com a sua rotina, é melhor refletir em como obter máxima satisfação de algo que você irá fazer por muito tempo, durante pelo menos umas quatro décadas da sua vida, em condições normais.

Se duas das três seguintes características estiverem presentes ao mesmo tempo em seu trabalho, muito provavelmente o sujeito se auto-avaliará como satisfeito com o que está fazendo:

  • Você deve ser bem recompensado pelo que faz;
  • Você deve estar em contínuo processo de aprendizagem com o que faz;
  • Você deve se divertir com o que faz.

Em resumo, uma pessoa estará satisfeita com o trabalho se tiver uma boa compensação (essa expressão não se restringe ao aspecto financeiro), ótimos ambiente e possibilidades de desenvolvimento.

A avaliação dessas características deve ser realizada da maneira mais racional possível, para que se evitem as armadilhas tradicionais que muitas vezes levam as pessoas a uma incessante a aparentemente infinita busca pelo trabalho ideal, que não passa de uma ilusão, pois não existe na vida real.

A primeira armadilha vem da concepção do que é ser bem recompensado. Todo mundo quer ganhar bem e em qualquer pesquisa que se faça sobre o assunto, a maioria dos entrevistados dirá que merece um salário melhor. Porém, em uma análise mais detalhada do mundo ao seu redor, muita gente poderia mudar de opinião. O conjunto composto por um profissional e sua atividade carrega consigo um valor de mercado. Um jovem médico que deseje cobrar R$ 800 por consulta terá sua agenda vazia. Um profissional recém-formado que pretenda atingir nível e compensação gerenciais em tempo recorde em uma grande empresa normalmente se frustrará. Então, para uma pessoa avaliar se está bem recompensada, ela deve ter ciência de quanto vale a sua atividade no mercado, e qual é a variação possível devido à  ‘senioridade’. Não é incomum a situação onde temos dois gerentes em funções similares, um recém promovido, outro com 5 anos de estrada. Seria no mínimo ingênuo da parte do primeiro desejar o mesmo nível de compensação do segundo. Experiência tem seu valor. Por outro lado, seria pretensioso para o mais experiente supor que essa diferença prevalecerá para sempre, pois a maior compensação requer também mais jogo de cintura, maior adaptabilidade e entrega. Se isso não ocorrer, fatalmente o mais jovem diminuirá a diferença e a ao longo do tempo a situação se inverterá. É a lei do mercado. Quem tem competência, se estabelece.

No mundo corporativo, é normal o sujeito ser promovido, ter suas responsabilidades ampliadas em um primeiro momento e somente depois receber a compensação financeira. Qualquer profissional com um pouco de quilometragem sabe disso, e essa situação é sustentada por uma lógica simples: muitas vezes, ao receber a tal ‘promoção branca’,  o indivíduo ainda não está preparado para a nova função, trata-se de uma aposta. Tão logo ele comece a materializar o potencial, irá adquirir o direito do ‘upgrade’ financeiro, que pode até tardar, mas não falhará. E não falha nunca, pois se o empregador demorar a fazê-lo, o mercado – ou melhor, seus concorrentes – farão por ele.

A alta remuneração também gera efeitos colaterais. Por diversas razões, um profissional pode ganhar muito mais que seus pares em funções similares e essa pode ser uma situação insustentável no longo prazo. Na primeira crise, quem dança? Aquele que proporcionar a maior redução de custo. Para uma mesma função, ’ x’ % a mais na compensação requer a mesma proporção em ‘mais resultado’, qualquer que seja a sua medida.

Por isso, é extremamente importante o sujeito avaliar o contexto da ‘compensação’ antes de emitir o veredicto de que não está ganhando bem. Se isso for verdade, o mercado reconhecerá e lhe pagará o que for justo. Mas se isso tampouco acontecer, melhor rever os seus conceitos…

Das três características que eu mencionei, essa é a mais tangível e previsível. A menos que você acorde em um dia de inspiração absurda e crie um jingle genial do tipo ‘ai se eu te pego!’, tornando-se milionário, há um grau de previsibilidade razoável  nos potenciais financeiros das carreiras que escolhemos trilhar.

A questão do aprendizado indiretamente está associada com o tema da recompensa. Muitas vezes, profissionais abrem mão de um melhor ganho financeiro pela possibilidade de se desenvolverem em sua atividade, de tal modo que isso se reflita em oportunidades  – incluídas as  de ordem econômica – no futuro. Por isso é tão comum jovens profissionais se associarem às equipes de médicos ou advogados renomados, sem a contrapartida financeira imediata – na verdade eles estão adquirindo ‘musculatura’. O mesmo se aplica no mundo corporativo, pois a quantidade de experiências e desafios que uma atividade é capaz de proporcionar tem um valor imenso, muitas vezes maior que uma diferença salarial imediata de 20 ou 30%. Eu diria que para os mais jovens, aqueles que ainda não ultrapassaram a barreira dos trinta anos, essa característica vale mais que o aspecto financeiro. Entre 30 e 40 anos, as duas variáveis passam a ter valor similar e após os 40, o tema da recompensa passa a ser mais relevante. Isso depende muito do estágio de carreira de cada um, mas pergunte-se: o que você preza mais, um trabalho com remuneração ‘ok’ e 20% a mais de desafios, ou um trabalho com nível de desafios ‘ok’ e 20% a mais de remuneração? As respostas surpreenderiam aqueles que acham que o dinheiro  está acima de tudo.

Por desafio, não se considera somente o aspecto técnico da atividade, inclui-se nessa definição  as questões de relacionamento com pessoas, que envolvem o gerenciamento de conflitos, ambiguidades e interesses divergentes, e também as de liderança e influência. Os desafios que proporcionam desenvolvimento podem ser tão complexos quanto a diversidade da natureza humana. Nessa hora, atividades onde haja pressão, mudança, stress – por mais que gerem um certo grau de ansiedade em seus protagonistas, também os tornam profissionais mais completos, pois na ‘confusão’ sempre se pode aprender muito. Desenvolvimento não é só treinamento em sala de aula, é também o que o ambiente de trabalho lhe proporciona para se tornar um profissional melhor.

Finalmente, chegamos à última, e nem por isso menos importante das três características essenciais para ser feliz no trabalho: um bom ambiente, associado ao termo ‘divertir-se’ com o que faz. Isso não significa que a pessoa precisa de boas gargalhadas para estar satisfeita. Nada disso. A expressão está relacionada à satisfação do sujeito com o local de trabalho, suas instalações, a logística para chegar até lá e sobretudo as pessoas com as quais ele interage todos os dias, que nada mais são que um conjunto composto por chefes, pares, subordinados, clientes e prestadores de serviço.  Pensando bem, é difícil que em se tratando de ‘gente’, alguém tenha a felicidade de desfrutar de um convívio excepcional com todos esses sub-grupos…é claro que todo trabalho trará algumas ‘dores de cabeça’ nesse quesito.

Por exemplo, um indivíduo que tenha um convívio espetacular com seus chefes, pares e subordinados, exceto com os seus clientes – assumindo que eles sejam insuportáveis – mas que passe 80% do seu tempo lidando com esses últimos, não terá um ambiente considerado aprazível. Da mesma maneira, se o gerador de desconforto for um par com o qual ela tenha de lidar poucas vezes ao mês, não haverá prejuízo à avaliação do ambiente. Enfim, é importante ponderar se as pedras no sapato – elas sempre existirão – são grandes suficientes para atrapalhar a sua caminhada. De qualquer maneira, trata-se de uma característica de extrema importância e muitas vezes negligenciada pelas pessoas quando avaliam uma futura atividade. Um bom ambiente de trabalho pode não lhe tornar um milionário, mas é capaz de lhe produzir vários dias bons!  E o que é a vida, senão um conjunto de dias vividos e as sensações que eles nos trazem?  Em contrapartida, um ambiente de trabalho ruim pode lhe tornar um sujeito deprimido, amargo, ‘reclamão’, do qual as pessoas fugirão, pois não mais do que de repente você se tornará um chato de galocha!

Da mesma maneira que uma pessoa pode influenciar o ambiente de trabalho (positivamente ou negativemente), a recíproca é verdadeira. Por isso, é tão importante considerá-lo como elemento fundamental na sua avaliação de satisfação. E finalmente, faça a pergunta: você iria de bom grado a um ‘happy hour’ com a turma do trabalho? Se a resposta for um ‘não’ ou um ‘talvez’, é bom observar esse tema com atenção. Ou o ambiente está destoando de você, ou é o contrário.

Quando menciono que o sujeito com duas das três características acima estará satisfeito, estou sendo realista. É muito difícil ter as três ao mesmo tempo. E se for o caso, será efêmero. Isso por que à medida que amadurecemos, nossas aspirações profissionais evoluem. É quase impossível alguém passar anos fazendo a mesmíssima coisa e obter disso o mesmo nível de satisfação. Passado um período longo, ele poderá estar insatisfeito com o seu salário, as pessoas ao seu redor podem ter mudado e ele seguramente já não se aprimora como antes. Do mesmo modo, o peso que cada uma dessas características tem na avaliação é algo bastante subjetivo. Há pessoas que se importam muito mais com o aspecto financeiro do que com qualquer outro fator. Se esse é o caso, um ótimo salário ofuscará o fato de se trabalhar em um ambiente hostil. Em outras ocasiões, o fator financeiro não é tão relevante, e não raramente as pessoas dão uma guinada de 180° em suas carreiras, para buscar literalmente novos desafios (tão comum nos emails de despedidas, mas não por isso menos verdadeiros) ou mudar completamente o seu ambiente.

Também é importante destacar que o termo compensação pode carregar um aspecto idealista, de satisfação interior. Do contrário, muitos professores e médicos no Brasil jamais se sentiriam realizados nesse aspecto. Ocorre que muitas vezes a falta de um salário adequado é compensada pela satisfação social e moral que a atividade traz. Pense em uma professora de uma escola pública no interior do Nordeste, que convive com a falta de investimento do Estado para que ela se desenvolva, um ambiente precário e uma compensação financeira desprezível Dentro da lógica, ela teria zero das três características, e estaria fadada à infelicidade no seu trabalho. Mas o impacto social de sua função pode lhe trazer uma compensação não financeira extraordinária e o convívio com crianças carentes preencher as demandas de um bom ambiente. Pronto, ela já teria duas das três características básicas e poderia – apesar de todos os reveses – se considerar feliz no trabalho. E com certeza encontraremos milhares de professores em circunstâncias similares, realizados e satisfeitos com o seu ofício, apesar de todos os percalços. Ao invés de ser um contra-exemplo, essa situação valida a nossa teoria.

Enfim, considerando que boa parte do tempo de sua vida está atrelada à sua atividade profissional, é importante ponderar constantemente sobre a evolução que a sua carreira está tomando, seja ela qual for. Para tal, jamais se deixe influenciar por um dia ruim, ou mesmo um período mais complicado. Eles fazem parte da rotina de qualquer atividade. A avaliação do seu contexto profissional deve ser permeada de racionalidade, mesmo que o seu trabalho não a requisite com frequência. O condutor dos rumos que a sua carreira toma é você mesmo, e mais ninguém. Entender quais são as suas prioridades, e as características do contexto que lhe cerca são fundamentais para que suas decisões sejam acertadas. Não terceirize a administração da sua vida profissional, ela é sua propriedade inegociável!

Agora, se você tem zero das três características acima em seu trabalho, e não há esperança de melhorar, está esperando o que para ‘ puxar o carro’ ? Ou prefere continuar reclamando?

3 Comments
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3 Comentários

  1. Rafaela Andrade

    26 de março de 2012 em 23:55

    Excelente texto! Concordo plenamente com o exposto sobre remuneracao. Quando entrei no Citi deixei um emprego onde ganhava 70%mais mas que desafiava apenas 20% do meu potencial. Aprendizado e desafios geram ganhos futuros muito maiores tanto financeiramente quanto pessoalmente. Pena que a tao famosa geracao Y esteja desvirtuando esta verdade em prol do imediatusmo e superficialidade das altas remuneracoes e bonus que nao sao auto-sustentaveis no medio prazo!

  2. Celio

    11 de março de 2017 em 01:19

    A realidade da vida corporativa não está paltada no Excel e sim no PowerPoint
    Mais do que ser , tem que parecer ser
    Nem sempre o que parece ser é
    Nem sempre o que não parece ser é
    Não deixe de acreditar no que é exato por conta de sonhos ou algo que não seja tangível
    Trabalhei com o Victor ,é um dos melhores parceiros e profissionais de risco que existe no mercado
    Que tem um dom de escrever todas as suas experiências da vida, e a generosidade de compartilhar conosco!

    1. Victor

      11 de março de 2017 em 02:19

      Obrigado, celião!

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