Crônicas da cidade vermelha

Pousamos em Marrakesh no final da tarde de quinta-feira, em Julho/2007, sem saber o que nos esperava nos quatro dias seguintes. Ao sair do avião, uma brisa quente, quase um vento, sobre os nossos rostos. ‘Que falta de consideração deixar a turbina ligada na saída dos passageiros’, pensei. Alguns passos depois, percebemos que se tratava do verão local. Quase 8 horas da noite, e a sensação térmica é a mesma que se tem ao abrir um forno. No caso, nós somos a carne assando.

O aeroporto é simplório. Nada que alguém com experiência em voôs pelo Brasil não esteja acostumado. Após os procedimentos de imigração, caminhamos até o ponto de táxi. Como de  praxe em vários lugares do mundo, havíamos sido alertados sobre a maladragem dos taxistas. O preço da corrida entre o aeroporto até o centro devia custar 60Dh (na época ao redor de R$ 16). No ponto, uma aglomeração de pessoas, que logo se oferecem para carregar as malas. Uma confusão falada em árabe. Entramos em um ‘pé-de-bode’, condição usual dos carros disponíveis, e passei o endereço ao motorista. Ele cobrou 120Dh. ‘São duas pessoas’, disse ele. Bom argumento. Não ia discutir por tão pouco. E assim começou nossa primeira aventura em terras árabes/berberes.

O trânsito é uma confusão de carros velhos, alguns novos, lambretas diversas, muitas bicicletas e carroças. Não me refiro aos carros produzidos no Brasil, mas ao meio de transporte puxado por cavalos, que costumamos ver no interior! Imaginem isso tudo misturado. Confesso que ver os ‘outdoors’em árabe me causou certa inquietação, intensificada ao observar a quantidade de pessoas com as tradicionais roupas do Oriente Médio – uma espécie de camisolão de hospital – e as mulheres com manto sobre as cabeças. Diria que metade delas o utilizavam. ‘Esse não é meu mundo’, pensei. E lá, nós éramos minoria.

Entramos na Medina, região mais antiga da cidade, cercada por um muro de aproximadamente 10Km de extensão, que se abre ao mundo exterior através de oito portões diferentes. A Marrakesh que aparece nos filmes está dentro dela. Uma área bastante pobre. Dentro da Medina, há um fluxo muito maior de bicicletas, lambretas e pessoas. Quase nenhhuma rua possui calçada, apenas as situadas próximas à grande praça e nas imediações dos portões. A impressão que se tem é que são ruas de pedestres, mas os carros passam a todo vapor, tirando ‘fina’ de tudo. Andar de carro dentro da Medina lhe passa a falsa sensação de que você é um invasor, pois aquele espaço aparentemente não pertence aos automóveis…

O taxista entrou em várias ruelas aqui e ali e parou diante de uma mesquita. Na frente, uma pracinha. Ao redor, uma pequena multidão. Alguém vem em sua direção e lhe diz algo. Ele começa a dar ‘ré’, quase bate em outro carro, é xingado pelo dono de uma lambreta e finalmente consegue estacionar. ‘É aqui’, disse ele em inglês. Olhamos para todos os lados, e com uma mesquita à nossa frente e casas humildes ao nosso redor, pensamos: ‘De jeito nenhum! Não pode ser aqui!’. Pela internet, as fotos indicavam que o hotel era luxuoso. Ao nosso redor, tudo era muito modesto. O taxista reforçou: ‘É aqui mesmo’. Eu replico: ‘Tem certeza? Não pode ser!’. Nessa hora, eu pensei: ‘Emboscada!’. Visualizei as manchetes: ‘Casal de turistas brasileiros desaparecido em Marrocos. Embaixada ainda não tem pistas sobre o paradeiro’. Um flash do filme ‘Babel’ passou em minha cabeça. Me incomodou.

 O sujeito que havia dito ao taxista para dar ‘ré’ se aproxima. Tenta conversar em francês, fala um pouco de inglês, se apresenta como Abdul e indica que tem uma lojinha ‘logo ali’. Quer fazer negócio. Não estávamos no clima para entrar em lojinha alguma.  Naquela hora, eu ainda pensava em um ‘plano B’, no caso de uma ‘emboscada’! ‘Ok, Abdul, amanhã passamos por lá’. Um sujeito vestido de preto aparece dizendo trabalhar no hotel. O taxista nos acompanha. Minha esposa parece estar mais tranquila. Acho que já havia confiado a Deus. Eu esqueço o ‘plano B’ e os sigo. Também deixei nas mãos do Divino. Já sabia não se tratar de uma emboscada, mas minha preocupação agora era com a qualidade do hotel. Se seguisse o padrão da vizinhança, seria uma mega-muquifo!

O tal representante do hotel dá uns dez passos e vira à esquerda, entra em um beco. Pronto. ‘Dançamos’. Fomos parar em um beco dentro da Medina, em Marrakesh. Uns cinco passos a mais e me acalmei. O lugar era tranquilo. No final da caminhada, a porta do hotel, imponente. Ao entrarmos, a constatação: era um ‘palácio’! No meio daquela ‘muvuca’!

Não houve ‘emboscada’! Me arrependi de haver pensado nisso, pois até aquele momento, o tratamento que nos havia sido dispensado foi muito bom. Mesmo o pobre Abdul, só tentou fazer negócio…

O hotel era na verdade um conjunto de quatro ‘Riads’, com 21 suítes e um ambiente para lá de exótico e ao mesmo tempo sofisticado. As ‘Riads’ são uma espécie de pequenas pousadas, decoradas ao estilo marroquino, encontradas em grande variedade dentro da Medina. São como pérolas no meio da pobreza. O tratamento aos hóspedes é de primeira classe. O curioso é que mesmo na prestação de serviços, os marroquinos se dirigem no primeiro momento aos homens e com alguma relutância às mulheres. Apesar de ser um dos países mais ‘light’ do mundo muçulmano, ainda assim percebemos esse comportamento, embora em nenhum momento tenha causado desconforto. De acordo com um dos recepcionistas, 30% das pessoas são genuinamente praticantes do islã, seguindo rigorosamente seus preceitos. Os outros 70%, apesar de também muçulmanos, não são ‘praticantes’. Ou seja, os marroquinos são tão muçulmanos quanto os brasileiros são católicos.

Soubemos que havia sido um dia quente, ‘amenos’ 46◦, e que um calor ainda mais intenso estava por vir. E veio. No dia seguinte, encontramos um turista brasileiro que fotografou um termômetro de rua em 56◦. Talvez estivesse desregulado, mas seguramente enfrentamos mais de 50◦. Felizmente era um clima seco, do contrário não haveria condições de sobrevivência! As pessoas também não saíam muito às ruas entre as 2:00 e 5:00 da tarde. A cidade começa a ferver, e o comércio a entrar em ebulição, principalmente a partir desse horário, até às 10:00 – 11:00 da noite.

Todas as construções de Marrakesh usam a coloração ‘terracota’, daí o nome ‘cidade vermelha’. Ninguém soube me responder a razão disso, mas eu acho que trata-se da cor que melhor disfarça a poeira do deserto. Em um primeiro momento, é uma arquitetura diferente, mas com o tempo a vista se cansa da paisagem homogêna. Marrocos é uma das últimas mornarquias ‘absolutistas’ do planeta, pois seu rei tem um poder quase total sobre o governo. Há uma foto dele em todos os estabelecimentos comerciais de Marrakesh. Até no McDonalds. A propaganda em voga é que trata-se do melhor monarca das últimas décadas e que está modernizando o país, ainda bastante pobre – embora seja um dos mais desenvolvidos do continente africano. Porém, minha experiência com a realeza não foi lá das mais agradáveis: enquanto esperava pelo ônibus vermelho (desses que existem em várias cidades européias), filmava as ruas da região. Por uma infeliz coincidência, o prédio em frente aonde estávamos, era um dos três palácios reais de Marrakesh. Um guardinha a 50 metros de distância, percebendo que eu filmava, começa a acenar em minha direção e falar em tom ameaçador…o palácio não podia ser filmado ou fotografado, nem do lado de fora! Achei essa proibição incoerente com um país que deseja modernizar-se, mas obviamente cumpri a lei e desliguei a câmera. Não queria ter problemas com o Rei Mohamed VI. Em tempo, após a epidêmica primavera árabe de 2011, o Rei de Marrocos assinou uma mudança constitucional prevendo maiores poderes ao parlamento. Hoje, ele não ‘manda’ tanto quanto há 5 anos.

A primeira impressão ao caminhar pela Medina não é boa. A multidão, a abordagem agressiva para vender qualquer produto, a pobreza explícita e o calor insuportável constituem um conjunto difícil para se acostumar. Em contrapartida, o exotismo da situação ameniza um pouco o rigor com que avaliamos os primeiros momentos. Com o tempo, a primeira impressão se desfaz, e o sujeito começa a se habituar àquele mundo diferente.

A praça ‘Djemaa el fna’ é imensa, patrimônio da humanidade e local de convergência dentro da Medina. Caminhar por ela à noite é uma experiência única. Compartilham seu espaço milhares de pessoas, comerciantes, encantadores de serpentes, adestradores de macacos, vendedores, barraquinhas de suco e de comida típica e turistas, muitos turistas. Cercada de casas comerciais, muitas delas com restaurantes na sacada, a praça é passagem obrigatória para qualquer visitante. Que ninguém vá esperando algo belo. Mas o interessante não necessariamente é belo, e ‘Djemaa el fna’ é a prova disso. Ajeitar-se na varanda de um dos restaurantes com vista para a praça,  observar o pôr do sol, ouvindo os sons que ecoam daquele formigueiro humano exótico é um programa que marcará a vida de quem o faz. Transitar pela muvuca também. Eu me arrisquei na gastronomia da praça. Comi um churrasquinho de algo que não sei o que era. Não estava bom. Pegou gosto de querosene.

Da praça também partem os labirintos repletos de lojinhas de todos os tipos, famosos na cidade: a região dos ‘souks’. Aqui, pechinchar é lei. Se você não obtiver nenhum desconto, esteja certo de que pagou caro. Vende-se de tudo e os turistas são incansavelmente abordados. Com o câmbio favorável, o sujeito fica tentado a comprar quinquilharias, mas deve sempre se lembrar da dificuldade para encontrar lugar na mala; dessa maneira controlamos nosso ímpeto consumista. Mesmo que as compras não sejam aquelas do estilo ‘Miami/Florida’, somente o passeio em si pelos labirintos já vale a pena. A ambientação dentro da Medina é sempre a mesma: casas extremamente modestas, muita gente, muito ruído. Parece com uma grande favela urbanizada.

Há ótimos restaurantes em Marrakesh. Geralmente possuem aquele toque exótico, marroquino. Fomos em alguns deles, mas o que mais nos impressinou localizava-se na conchinchina. De táxi, dentro da Medina, foram mais de 20 minutos. Àquela altura, no penúltimo dia, já estávamos acostumados ao ‘metiê’. A região era bem pobre, mais do que o normal, e à certa altura, o carro parou. Daquele ponto em diante, só havia espaço para lambretas. Alguém do restaurante veio nos buscar e andamos uns 200 metros pelo lugar. Paupérrimo. Mas já sabíamos que de uma hora para outra, abriria-se a porta de um ambiente extremamente luxuoso. E foi isso que aconteceu. Comida e ambientes de primeira! Mesmo acostumados com o contraste entre riqueza e miséria, tão presente no Brasil, essas mudanças sem nenhuma transição, entre um ambiente paupérrimo e  outro extremamente luxuoso, nos surpreendem. Seria como bater perna dentro da favela da Rocinha ou de Paraisópolis, e de repente se ver diante de uma loja como a Daslu. Isso é Marrakesh!

Fora da Medina, a cidade tem suas construções modernas, alguns bairros mais sofisticados, onde estão localizadas as grandes cadeias de hotéis e sedes de multinacionais. Mas não é nada memorável. Ao perder seu lado exótico, a cidade torna-se mais desinteressante. Nos seus arredores, há condomínios de luxos com casas espetaculares, à beira do deserto, munidos de campos de golfe e clubes com piscina e música eletrônica. É a Marrakesh feita para os europeus. A uma hora de voô da Espanha, Marrocos sempre foi uma alternativa de turismo mais barata para a Europa.

Não sei como a crise econômica afetou o turismo na região. Com certeza há menos europeus, o que deve fazer com que o assédio dos vendedores esteja ainda mais intenso. Falando nisso, em todos os quatro dias de estadia, ao sairmos do hotel, encontrávamos o Abdul – sempre disposto a fazer negócio. Até que um dia, nos rendemos às suas investidas, fomos à sua lojinha a compramos algumas tralhas supérfluas. Dois meses depois você olha para essas compras e se pergunta onde estava com a cabeça para queimar dinheiro com aquilo. Mas essa viagens perderiam um pouco do seu charme, caso não tivessem uma pitada de lembrancinhas inúteis.

Hoje, com o Real mais forte, Marrocos deve estar ainda mais barato. Para quem quiser experimentar algo exótico, deve ser uma das alternativas mais próximas ao Brasil. Só não recomendo que a viagem seja feita no verão. E sugiro fortemente que a hospedagem seja feita dentro da Medina. Nada de buscar as grandes redes internacionais, fora dela. Há várias ‘Riads’ luxuosas, a preços acessíveis e excelente serviço. Uma viagem dessas deve ser feita se misturando ao povão. As chances de emboscada são remotíssimas!!!!

7 Comments
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7 Comentários

  1. Ale Moretti

    4 de março de 2012 em 13:12

    Oi Victor,

    Ao contrário do que denota a sua modéstia, o blog é muito útil para quem o lê.
    Tanto que vou lhe dar uma sugestão: ao tecer esses relatos de viagens, seria interessante que você fizesse uma breve lista de sugestões ao final do post (como é de praxe com matérias jornalísticas do gênero), com o nome e o endereço dos lugares mencionados – hotéis, restaurantes, “lujinhas” e outros. Por não ter de seguir uma “pauta editorial”, você tem um texto pessoal, bem-articulado e muito cativante. Para quem gosta de viagens, as informações podem vir a ser valiosas. Alguém que, como eu, “coleciona sonhos”, bem pode se beneficiar das suas contribuições: mantenho um arquivo de lugares que quero conhecer e foi assim com Istambul – anos antes de pôr o pé no avião, comecei a selecionar textos sobre a cidade. Sei que meu pedido burocratiza um pouco a sua “válvula de escape”, mas pela qualidade da leitura, pode se tornar uma boa fonte de interesse para viajantes inveterados. #ficadica
    😉

    Abraços e força na disciplina da escrita,
    Alessandra

    1. Victor

      4 de março de 2012 em 13:24

      Boa dica, Alessandra! Vou fazer. Ainda irei melhorar o blog, por enquanto eu só despejo as palavras! Obrigado! Abs

  2. Fatima Ciapina

    5 de março de 2012 em 22:48

    Olá, Victor,
    Muito bom seu relato, me transportei aos lugares descritos. Obrigada.

  3. Isabel Lopes

    21 de julho de 2013 em 11:48

    Olá Victor, seus relatos são realmente incríveis e nos transportam aos lugares descritos…
    A riqueza de detalhes, e quando descreve o “hotel com 21 suítes, ambiente para lá de exótico e ao mesmo tempo sofisticado”, imediatamente tive vontade de saber o nome e como me organizar para repetir seu roteiro…
    Obrigada, Abraço,

    1. Victor

      21 de julho de 2013 em 12:34

      Isabel,
      Não me lembro mais do nome, mas existe dezenas dessa por lá. Vai no google e coloca Riads Marrakesch e veja no que dá. Recomendo!
      Abs

  4. Ana Leticia

    21 de julho de 2013 em 12:21

    Querido Victor!

    Parabéns pelos relatos, você está cada vez melhor!
    Agora se você achou o Marrocos confuso…vem aqui me visitar no Sudão, kkkkk!
    Ramadan Mubarack my friend!

    Beijoca
    Ana Letícia

    1. Victor

      21 de julho de 2013 em 12:35

      Ana Letícia,
      Você aguçou minha curiosidade! Mande fotos!!!
      Por que vc não escreve a respeito?
      Bj

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