A derrocada do Velho Continente

Por quase dois milênios, a humanidade aprendeu a ser liderada pela Europa. Nossa história é euro-cêntrica, contada sempre sob o ponto de vista europeu. A recente supremacia norte-americana é um fato novo,  realidade que começou a desabrochar a partir da Primeira Grande Guerra e que se consolidou após a Segunda. Porém, mesmo ao longo de todos esses anos da ‘Era do Fast-food’, o Velho Continente seguiu como um dos protagonistas das grandes decisões do planeta. A Europa dos últimos 50 anos foi economicamente forte, e seguiu extremamente relevante do ponto de vista político e cultural. Vivemos em transição para um mundo onde a Europa será economicamente mais fraca e politicamente menos relevante.

A crise bancária de 2008 seguida pela crise das dívidas públicas atual está colocando a ‘pá de cal’ no mito do bem-estar social europeu, cuidadosamente construído pela maioria dos seus países ao longo das últimas décadas. O Velho Continente convive com problemas de difícilima solução, razão pela qual a manuntenção do ‘status quo’ no médio prazo é tão improvável quanto outro título corinthiano na Libertadores da América. Eis os principais deles:

1.       O envelhecimento da população e a enorme pressão no sistema previdenciário

Exceto a Irlanda, todos os países europeus apresentam taxa de fecundidade inferior a 2.1, considerado o índice mínimo para a reposição da população. Como consequência disso, a Europa está envelhecendo muito rápido. Hoje, 16.3% dos seus habitantes estão acima dos 65 anos e somente 15.1% abaixo dos 15. Ou seja, há mais idosos do que crianças. Essa diferença é ainda mais exacerbada na Alemanha, Itália e Grécia, como pode ser visto abaixo. Há uma série de países europeus onde esse problema já é muito crítico no presente (aqueles situados sob a linha vermelha no terceiro gráfico). E ao observar a sua pirâmide populacional (que mais parece um cilindro com base curta), constata-se que a situação tende a se agravar nos próximos anos, visto que o contingente de pessoas que ultrapassará a barreira dos 65 anos será muito maior que os ‘novatos’ na população economicamente ativa, uma vez que a quantidade de crianças já é percentualmente baixa, tal qual a taxa de fecundidade. Como consequência, o sistema previdenciário, majoritariamente fundeado pelo Estado (mais de 90%), irá explodir. Isso explica as tentativas desesperadas em vários países de modificar os critérios de aposentadoria, aumentando a idade inicial ou reduzindo os benefícios. Mas é difícil de acreditar que eleitores mais velhos, atualmente em  maioria e ainda mais representativos no futuro, aceitem votar contra o seu próprio interesse. O argumento técnico pode convencer uns poucos, mas a massa votará com a emoção vinda do bolso. Em duas décadas, os idosos representarão mais de 35% da população… É uma bomba-relógio atômica muito difícil de ser desarmada.

2.       A engessada legislação trabalhista e o altíssimo índice de desemprego entre os jovens

É muito caro demitir na Europa. Às vezes, impossível. Consequentemente, as empresas pensam duas, três vezes, antes de contratar. Por outro lado, quem perde o emprego normalmente recebe um compensador seguro-desemprego por muito tempo. Na França, por exemplo, o sujeito pode receber mais da metade do seu salário se ficar desempregado. Em alguns países, a seguridade se estende por 3 anos. Em poucos, por período indeterminado. Alguns governos nórdicos (Suécia e Dinamarca) implantaram uma medida que obriga o desempregado a aceitar a primeira oferta formal, sob  pena de ser excluído do benefício se não o fizer. Isso colaborou com a diminuição dos seus índices de desemprego, mas trata-se de uma exceção, e não a regra. Se a pessoa não quiser procurar uma nova atividade, acomodada com o seu ‘ócio remunerado’, não sofrerá nenhuma pressão do sistema.  Em um ambiente onde a economia cresce e o Estado tem dinheiro para bancar o custo social, tudo é alegria.  As empresas contratam, pois não tem receio do futuro e o número de desempregados é palatável. Mas no atual ciclo vicioso, no melhor dos casos o crescimento é pífio, as empresas precisam desesperadamente fazer ajustes para sobreviver e os Estados estão quebrados, depois de décadas de gastança. O desemprego aumenta, o jovem não se emprega, os governos cortam os benefícios, pois não conseguem fechar as contas, e todos se revoltam.

Em momentos de crise como esse, muitos vezes amplifica-se o pior de cada um. Que não se esperem reações racionais da maioria que perdeu o emprego, ou o benefício esperado por uma vida inteira. Nessas horas, a emoção prevalece. Mudanças nesse tipo de legislação possuem mais chance de êxito quando forem aplicadas gradualmente e em períodos de bonança, exatamente o oposto da situação atual.

A informalidade aumentará na Europa, como consequência do ‘pardieiro’ que está a situação do seu mercado de trabalho. Isso até servirá como analgésico no curto prazo, mas quando o efeito passar, a economia ‘subterrânea’ tomará a sociedade como refém. Aqui a analogia mais correta não é a de uma bomba relógio, mas a de um paciente com doença grave em uma UTI medianamente aparelhada e com manutenção duvidosa.

3.       Imigração e segregação

Imediatamente após a Segunda guerra, o movimento migratório na Europa ocorreu dos seus países periféricos para os mais desenvolvidos. A partir das décadas de 70 e 80, com as crises do petróleo e os problemas crônicos de inflação e desigualdade nos mundo subdesenvolvido, imigrantes da África, Ásia e América Latina chegaram aos milhões à Europa, trazendo consigo hábitos, cultura e religiões muitas vezes bem distintas daquelas estabelecidas há séculos. Atualmente, o número de imigrantes em qualquer país europeu representa próximo de 10% da população, quando não é maior. Na pequena, bela,  distante e hoje moribunda Grécia, há um contingente razoável de estrangeiros vindo dos Balcãs, principalmente da Albânia, Macedônia e Bulgária. Em 2006, representavam 9% dos 11 milhões de habitantes. A França está tomada por um oceano de descendentes dos países das suas ex-colônias africanas. Basta dar uma olhada na sua seleção de futebol (única instituição onde a segregação não prevalece). A Itália tem milhões de líbios e outros imigrantes da área do Magreb africano. A Espanha está repleta de latino-americanos, Portugal de africanos e brasileiros, a Alemanha com quase 8 milhões de imigrantes para uma população de 82 milhões, sendo 1 milhão de ilegais e em sua maioria turcos. O Reino Unido está se convertendo em um ‘hub’ indiano. Não há exceção. E também não há assimilação. Apesar das características diferentes na maneira com que cada país trata o tema (Inglaterra e Holanda são mais tolerantes à manifestação cultural própria do imigrante, a França é mais coercitiva em impor seus valores, etc), normalmente encontramos os imigrantes participando do mercado de trabalho, ocupando posições mais simples na escala social, mas vivendo uma vida privada paralela e distinta do padrão usual.

E qual a única e remota possibilidade de desarmar a bomba-relógio do problema 1, se os europeus não aumentarem a taxa de fecundidade? Imigração.  Estudos apontam que serão necessárias algumas dezenas de milhões de imigrantes adicionais nas próximas décadas para resolver o imbróglio. E esse contingente não ocupará somente a base da pirâmide. Não tardará e veremos um descendente de algeriano no comando da França, um turco-alemão influenciando a politica alemã, luso-brasileiros e sulamericanos-espanhóis ditando regras na península ibérica, indiano-britânicos recebendo títulos de nobreza em Londres. Será a vingança tardia dos colonizados do passado. A velha Europa aceitará esse movimento? Ou teremos uma convulsão social? O tempo dirá.

4. Falta de ambição

Já imaginou um indivíduo de um país emergente recebendo uma promoção, com aumento de salário, e se recusando a recebê-la? Pode até acontecer, mas é raríssimo. Na Europa, pasmem, não é incomum. Muitas vezes as pessoas optam por não sacrificar mais a vida pessoal em troca de mais responsabilidade e uma carreira acelerada, ou mesmo uma condição financeira melhor. O pensamento é o seguinte: ‘Ganho o que eu preciso para manter uma vida confortável, viajar, curtir meus 30 dias de férias, não quero mais do que isso. Não vou me aborrecer’. Em um artigo anterior, abordei superficialmente o tema. Na prática, o europeu vive melhor. Mas quando isso deixa de ser a opinião de um ou outro e passa a ter relevância estatística, a sociedade fica mais improdutiva. Em um mundo globalizado, as consequências são óbvias. Para cada europeu que se acomoda, há vários chineses e indianos com ‘sangue nos olhos’, ávidos por crescer. O mais impressionante é que os europeus são muito bem educados, em geral tem formação acadêmica sólida e exalam cultura. Mas esses elementos, sem uma pitada razoável de ambição, são como uma exuberante salada de alface e tomate sem azeite e sal. Enquanto isso, os emergentes estão se tornando cada vez mais cultos e educados…com azeite e sal!

Agreguemos os problemas 1, 2, 3 e 4. É muito difícil resolvê-los, pois não são simplesmente temas sob controle de um governo, mas vinculados ao DNA cultural milenar europeu e à recente, mas intensa preponderância de um Estado de bem-estar, que foi extraordinário enquanto virtude, mas está sendo letalmente venenoso enquanto defeito.

Se o leitor pensar que por conta da descrição acima, encontrará uma Europa em frangalhos ao visitá-la, estará enganado. No Brasil, vivemos praticamente 514 anos em crise, e nem por isso o país a experimenta de maneira homogênea. A derrocada do Velho Continente não está associada ao seu presente; afinal, um rico em dificuldade continua rico, por ora. Ela tem a ver com o seu futuro, seriamente ameaçado. Um rico em dificuldade tem grande chance de deixar seu filho mais pobre.

O Brasil tem problemas distintos aos da Europa, corre sérios riscos de ‘envelhecer antes de ficar rico’, mas com certeza não empobrecerá. Desperdiçar potencial não nos deixa mais pobres, e sim menos ricos. Pensando sob essa ótica, nossos desafios são mais factíveis que os enfrentados pelo Velho Continente, muito embora não tenhamos muito êxito em enfrentá-los em tempos recentes.

*Gráficos desenvolvidos a partir do relatório EUROSTAT 2007

5 Comments
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5 Comentários

  1. Wagner

    18 de fevereiro de 2012 em 22:10

    Victor,
    Ficou show de bola.
    Abs!

  2. AP

    19 de fevereiro de 2012 em 01:24

    Victor, parabens pelo blog, ta muito bom. Acho que em 20 anos ou menos vamos falar de algumas coisas que hoje achamos normais como a supremacia americana e europeia e nos filhos vao achar estranho…
    Se quiserem uma leitua bem interessante do assunto recomendo Niall Ferguson, The west and the rest. Fala um pouco como o West conseguiu essa supremacia… E que essa formula ja nao eh exclusiva e os outros estao chegando e passando.
    Abraco e bom carnaval…. Amanha para mim eh so domingo.

  3. Marília Bonavides

    1 de dezembro de 2012 em 23:59

    Belíssima análise das causas da situação atual do velho mundo. Comentários abalizados, sensatos e absolutamente verídicos.
    Faz pensar!
    Muito legal.
    Parabéns!

  4. Cezar Chiarantano Jr

    3 de dezembro de 2012 em 22:53

    Victor,
    Ainda não conhecia este seu lado jornalísta e professor. Não ficou devendo nada às ótimas colunas do Celso Ming no Estadão ou às matérias tão bem embasadas da Revista Conjuntura Econômica da FGV. Abs Cézar

  5. marco

    14 de janeiro de 2015 em 06:12

    Victor

    Sensacional, uma verdadeira aula, visão privilegiada!!
    Parabéns

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