Onde é melhor viver: Estados Unidos ou Europa?

12 de fevereiro de 2012 Por Victor

Após quase seis anos vivendo fora do país, sendo dois anos e meio nos EUA e três anos e meio na Europa, aprendi no dia a dia a diferenciar os estilos de vida de cada um e definir minhas preferências. É injusto atribuir características homogêneas aos Estados Unidos, país continental com inúmeras particularidades regionais. Da mesma maneira, a visão de Europa como um bloco ‘monolítico’ não é realidade nem na cabeça dos maiores idealistas da União Européia. Apesar disso, é possível delinear alguns traços culturais similares que aproximam os moradores da Flórida e os da Dakota do Sul como americanos, e os habitantes do sul da Itália e dos alpes austríacos como europeus. E de fato, a vida ‘americana’ e ‘européia’ diferem tanto entre si quanto coca-cola e vinho ao nosso paladar.

 

 

 

 

 

MJá escrevi em outro post sobre a característica consumista da sociedade americana, por isso não irei me prolongar no assunto. Os americanos geralmente também são auto-cêntricos, não se preocupam muito com o mundo lá fora. Os noticiários cobrem majoritariamente notícias locais. Os vencedores das ligas de baseball e futebol americano são nomeados ‘campeões mundiais’. Vivendo lá, você tem a impressão que há um certo desdém para com o resto do mundo, mas na realidade não é bem isso. Um país continental, de natureza altamente diversificada e principal economia do planeta há quase um século, se basta. E não se pode falar em arrogância, quando suas universidades são as mais abertas do planeta e recebem cérebros de todas as partes do mundo. Apesar de serem aparentemente fechados, os Estados Unidos sempre se valeram de estrangeiros para a geração de riqueza, ciência e inovação.

 

 

 

 

 

 

O americano também é quase um nômade. Vive em várias cidades diferentes, não se apega à sua terra natal. Vai para onde encontra oportunidades de empreender e crescer. Gosta de espetáculos, lojas e trash-food, tanto que o ponto altos dos eventos esportivos ao vivo é o intervalo. Muitas vezes, mesmo durante o transcorrer de uma partida, as pessoas estão circulando no estádio ou na arena, dentro das lojas – e perdendo o jogo! Come-se muito e mal. Não é à toa que a população obesa é a maior do planeta. O ‘almoço’ não é muito valorizado. No dia a dia dos escritórios, o mais comum é ver a turma comendo algo rápido em suas mesas. Janta-se cedo, 7:00  da noite é o normal. Apenas 37% dos americanos tem passaporte, a maioria esmagadora nunca saiu do país. E quando o faz, viaja muito para os vizinhos México e Canadá (esse é um dado de 2016, muito baixo para o país mais rico do mundo. No Reino Unido, 71% da população tem passaporte). Embora não pareçam, são bastante orientados à família, porém não com o ‘apego latino’, o que não necessariamente significa menos amor. Os Estados Unidos não enfrentam um processo de envelhecimento da população, que continua se reproduzindo à taxas superiores ao mínimo necessário para o seu crescimento. Sim, os americanos se casam e tem filhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

O europeu não é tão consumista quanto o americano. Prefere gastar sua folga orçamentária em viagens, beneficiado pelo fato da Europa ter um emaranhado de países todos muito próximos e com grande facilidade de acesso, seja por avião ou trem. As cidades européias geralmente são favoráveis ao pedestre. Bate-se muita perna por lá. Você encontra com gente nas ruas. Essa não é uma regra geral das cidades americanas. Excetuando-se as metrópoles mais cosmopolitas, nos EUA você encontra gente mesmo é nos ‘outlets e shoppings’. Também na Europa há uma integração muito maior aos acontecimentos do mundo. Grande parcela do noticiário é de conteúdo internacional. Nesse aspecto, você se sente mesmo parte de uma aldeia global quando vive por lá. O porteiro do seu prédio é capaz de discutir com alguma profundidade assuntos do Brasil. Nos EUA, o mesmo porteiro mal saberá onde fica o gigante do hemisfério sul. Com tanta globalidade, é de se surpreender que o europeu em geral prefira viver em sua terra natal. O ‘nomadismo’ americano não é muito praticado. As pessoas geralmente viajam, conhecem o mundo, mas retornam ao seu vilarejo. Incrivelmente, é um continente que envelhece muito rápido. O europeu tem poucos filhos. Alguns países, como Itália e Espanha, tem as suas populações decrescendo. Tiram mais férias. Entre em um escritório na sexta-feira à tarde de um verão europeu, em qualquer país do mediterrâneo e grite. Você ouvirá ecos! O escritório estará vazio! Na Europa, valoriza-se qualquer refeição. O ato de almoçar é importante: comer bem, acompanhado de um bom vinho, quase tão barato quanto água. O europeu vai aos estádios para ver futebol , sem apreço ao intervalo. São fanáticos. Tanto quanto os brasileiros. Dá para dizer que o estilo de vida europeu é mais ‘bon-vivant’ que o americano, que leva uma vida menos excitante. Isso é claro, partindo de uma generalização que é tão injusta quanto correta.

E qual é melhor? Depende. Para quem vai experimentar uma vida expatriada por tempo determinado, eu diria sem pestanejar que viver na Europa é muito mais agradável. Porém, se me fosse exigido escolher um local para passar a vida toda, também não titubearia em escolher os Estados Unidos. Há uma diferença marcante que influencia muito as escolhas de curto e longo prazo. A Europa ainda não se acostumou a receber imigrantes. Historicamente, os europeus é que migravam para outros locais. Por séculos foi assim. Por isso, é muito difícil para um estrangeiro ser ‘assimiliado’. Isso não quer dizer que ele será maltratado, mas nunca será um ‘igual’. Viva 30 anos na Itália, mesmo com passaporte italiano, você nunca se sentirá plenamente em casa. Já os EUA, um país que sedimentou suas raízes com imigrantes e que sempre os recebeu, assimila o estrangeiro após alguns anos de permanência. No mesmo exemplo anterior, viva 30 anos nos EUA e você estará tão americano quanto o George Bush!

Se não houver preocupação em estabelecer raízes, a vida na Europa oferece uma experência superior do ponto de vista cultural. Mas para estabelecer raízes, você precisa se sentir em casa. E quem fez a vida ‘recebendo’ hóspedes, sabe como deixar a pessoa mais à vontade. Por isso, no longuíssimo prazo, a vida nos EUA oferece mais ‘acolhimento’.

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