Onde é melhor viver: Estados Unidos ou Europa?

Após quase seis anos vivendo fora do país, sendo dois anos e meio nos EUA e três anos e meio na Europa, aprendi no dia a dia a diferenciar os estilos de vida de cada um e definir minhas preferências. É injusto atribuir características homogêneas aos Estados Unidos, país continental com inúmeras particularidades regionais. Da mesma maneira, a visão de Europa como um bloco ‘monolítico’ não é realidade nem na cabeça dos maiores idealistas da União Européia. Apesar disso, é possível delinear alguns traços culturais similares que aproximam os moradores da Flórida e os da Dakota do Sul como americanos, e os habitantes do sul da Itália e dos alpes austríacos como europeus. E de fato, a vida ‘americana’ e ‘européia’ diferem tanto entre si quanto coca-cola e vinho ao nosso paladar.

 

 

 

 

 

MJá escrevi em outro post sobre a característica consumista da sociedade americana, por isso não irei me prolongar no assunto. Os americanos geralmente também são auto-cêntricos, não se preocupam muito com o mundo lá fora. Os noticiários cobrem majoritariamente notícias locais. Os vencedores das ligas de baseball e futebol americano são nomeados ‘campeões mundiais’. Vivendo lá, você tem a impressão que há um certo desdém para com o resto do mundo, mas na realidade não é bem isso. Um país continental, de natureza altamente diversificada e principal economia do planeta há quase um século, se basta. E não se pode falar em arrogância, quando suas universidades são as mais abertas do planeta e recebem cérebros de todas as partes do mundo. Apesar de serem aparentemente fechados, os Estados Unidos sempre se valeram de estrangeiros para a geração de riqueza, ciência e inovação.

 

 

 

 

 

 

O americano também é quase um nômade. Vive em várias cidades diferentes, não se apega à sua terra natal. Vai para onde encontra oportunidades de empreender e crescer. Gosta de espetáculos, lojas e trash-food, tanto que o ponto altos dos eventos esportivos ao vivo é o intervalo. Muitas vezes, mesmo durante o transcorrer de uma partida, as pessoas estão circulando no estádio ou na arena, dentro das lojas – e perdendo o jogo! Come-se muito e mal. Não é à toa que a população obesa é a maior do planeta. O ‘almoço’ não é muito valorizado. No dia a dia dos escritórios, o mais comum é ver a turma comendo algo rápido em suas mesas. Janta-se cedo, 7:00  da noite é o normal. Apenas 37% dos americanos tem passaporte, a maioria esmagadora nunca saiu do país. E quando o faz, viaja muito para os vizinhos México e Canadá (esse é um dado de 2016, muito baixo para o país mais rico do mundo. No Reino Unido, 71% da população tem passaporte). Embora não pareçam, são bastante orientados à família, porém não com o ‘apego latino’, o que não necessariamente significa menos amor. Os Estados Unidos não enfrentam um processo de envelhecimento da população, que continua se reproduzindo à taxas superiores ao mínimo necessário para o seu crescimento. Sim, os americanos se casam e tem filhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

O europeu não é tão consumista quanto o americano. Prefere gastar sua folga orçamentária em viagens, beneficiado pelo fato da Europa ter um emaranhado de países todos muito próximos e com grande facilidade de acesso, seja por avião ou trem. As cidades européias geralmente são favoráveis ao pedestre. Bate-se muita perna por lá. Você encontra com gente nas ruas. Essa não é uma regra geral das cidades americanas. Excetuando-se as metrópoles mais cosmopolitas, nos EUA você encontra gente mesmo é nos ‘outlets e shoppings’. Também na Europa há uma integração muito maior aos acontecimentos do mundo. Grande parcela do noticiário é de conteúdo internacional. Nesse aspecto, você se sente mesmo parte de uma aldeia global quando vive por lá. O porteiro do seu prédio é capaz de discutir com alguma profundidade assuntos do Brasil. Nos EUA, o mesmo porteiro mal saberá onde fica o gigante do hemisfério sul. Com tanta globalidade, é de se surpreender que o europeu em geral prefira viver em sua terra natal. O ‘nomadismo’ americano não é muito praticado. As pessoas geralmente viajam, conhecem o mundo, mas retornam ao seu vilarejo. Incrivelmente, é um continente que envelhece muito rápido. O europeu tem poucos filhos. Alguns países, como Itália e Espanha, tem as suas populações decrescendo. Tiram mais férias. Entre em um escritório na sexta-feira à tarde de um verão europeu, em qualquer país do mediterrâneo e grite. Você ouvirá ecos! O escritório estará vazio! Na Europa, valoriza-se qualquer refeição. O ato de almoçar é importante: comer bem, acompanhado de um bom vinho, quase tão barato quanto água. O europeu vai aos estádios para ver futebol , sem apreço ao intervalo. São fanáticos. Tanto quanto os brasileiros. Dá para dizer que o estilo de vida europeu é mais ‘bon-vivant’ que o americano, que leva uma vida menos excitante. Isso é claro, partindo de uma generalização que é tão injusta quanto correta.

E qual é melhor? Depende. Para quem vai experimentar uma vida expatriada por tempo determinado, eu diria sem pestanejar que viver na Europa é muito mais agradável. Porém, se me fosse exigido escolher um local para passar a vida toda, também não titubearia em escolher os Estados Unidos. Há uma diferença marcante que influencia muito as escolhas de curto e longo prazo. A Europa ainda não se acostumou a receber imigrantes. Historicamente, os europeus é que migravam para outros locais. Por séculos foi assim. Por isso, é muito difícil para um estrangeiro ser ‘assimiliado’. Isso não quer dizer que ele será maltratado, mas nunca será um ‘igual’. Viva 30 anos na Itália, mesmo com passaporte italiano, você nunca se sentirá plenamente em casa. Já os EUA, um país que sedimentou suas raízes com imigrantes e que sempre os recebeu, assimila o estrangeiro após alguns anos de permanência. No mesmo exemplo anterior, viva 30 anos nos EUA e você estará tão americano quanto o George Bush!

Se não houver preocupação em estabelecer raízes, a vida na Europa oferece uma experência superior do ponto de vista cultural. Mas para estabelecer raízes, você precisa se sentir em casa. E quem fez a vida ‘recebendo’ hóspedes, sabe como deixar a pessoa mais à vontade. Por isso, no longuíssimo prazo, a vida nos EUA oferece mais ‘acolhimento’.

europa

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26 Comentários

  1. Paulo Sampaio

    12 de fevereiro de 2012 em 09:59

    Victor, me identifico muito, mas muito mais com o estilo de vida europeu. Especialmente na questão do apreço às refeições. Eu acho um absurdo almoçar na mesa de trabalho. para mim é uma agressão á alma e ao corpo. Sem falar na questão do consumismo, com a qual não me identifico em nada. Detesto fazer compras. Não tenho a menor paciência. Mas reconheço os méritos de uma cidade como Nova York, que é literalmente uma ilha de cultura e boa gastronomia nos EUA. Pode até ser que a adaptação na Europa seja mais complicada. De qualquer modo, eu não sei se passaria o resto da minha vida fora do Brasil. Assim como o europeu, também sou apegado à minha vila.

  2. Viviane Simi Magalhaes

    14 de fevereiro de 2012 em 00:22

    Victor,
    Adorei seu texto ! Como voce escreve bem e consegue expor de forma clara suas ideias e, principalmente, sua experiencia cultural !
    Continuo ainda mais firme no meu proposito de viver fora, seja para ter maior desenvolvimento cultural na Europa, seja para sentir o acolhimento dos EUA.
    Um beijo grande, Vivi.

  3. Athayde Martins

    16 de fevereiro de 2012 em 12:11

    Victor,

    Excelente as suas observações. Somente quem morou fora para saber estas coisas. Gostaria de aproveitar (porque não dizer abusar) desta sua experiência em Grécia, e pedir para me dar algumas dicas. Em Setembro vou para lá, de férias (não mais que 5 dias) e depois Itália.

    Abraço.

  4. Fábio Cegali

    18 de fevereiro de 2012 em 19:04

    Victor, você pegou o espírito.
    Nunca morei fora, mas tenho uma irmã que virou (limonada) suíça, além de outros amigos que passaram muito tempo por lá, em países do norte. Então entendo a questão do acolhimento.
    Mas ainda me parece que na Europa Latina, por ser de onde vieram nossos ancestrais, o acolhimento é genuíno. Por diferenças culturais, isso não se dá tão tranquilamente na Europa Anglo-saxônica. Mas não seria diferente se quiséssemos escolher, por exemplo, morar na Austrália.
    Agora, nos Estados Unidos, o acolhimento me parece extremamente baseado naquela ética protestante, onde você tem que mostrar ao que veio, para só daí você poder “se sentir acolhido” – diferente de ser acolhido de fato (pelo que você é, não pelo que você faz ou fez)”. Conheço também gente que, mesmo depois de anos e anos construindo uma vida nos EUA, no seu íntimo ainda se sente ambiguamente desajustada. Acostumada com uma vida justa, mas desajustada, racionalizando que a vida lá é bem melhor…
    Em resumo: pra mim, nada como seu vilarejo (aliás, ouça com atenção a letra dessa música cantada pela Marisa Monte, que reflete o sentimento de brasilidade).
    Abraços!

  5. Carla Freitas

    6 de maio de 2012 em 11:15

    Victor, adorei o novo look do blog e este post. Como estou morando na Coreia do Sul, fiquei pensando aqui como a Asia entraria nesta comparacao…
    Boa semana!

    1. Victor

      7 de maio de 2012 em 23:16

      Carla, tudo leva a crer que nessa vida nao terei a oportunidade de viver na Asia…sendo assim, nao tenho condicao de replicar o texto 🙂 …por que vc nao compartilha essa experiencia, que deve inclusive estar sendo fantastica ! 🙂

  6. Airam Savoc

    22 de fevereiro de 2013 em 01:39

    Vitor, Moro nos EUA, Tudo que eu precisava ler para concluir minhas opinions foi postado por vc nesse blog. Concordo com tudo que vc postou sobrie viver na chamada “America”‘, só faltou salientar de como são educados, na minha opinião o americano e muitíssimo educado, muita gente pode discordar de mim. Sou descendente de europeu e não posso falar o mesmo dos meus descendentes. Um abraço.

  7. Arnaldo Palma

    3 de março de 2013 em 12:42

    Muito interessante e bem escrito.

  8. Rose Mary Gaspar

    25 de julho de 2013 em 21:00

    Victor, amei a explanação. Minha experiência nos Estados Unidos como “exchange student”, há muito tempo atrás, deixou em mim a mesma impressão. Gosto muito do seu jeito claro e objetivo de escrever. Um abraço.

  9. Susana D.

    26 de julho de 2013 em 00:36

    Victor, gostei muito das diferencas entre USA e Europa pelo seu ponto de vista ! Moro nos USA ja faz 15 anos, e hoje, chamo esse pais MY HOME ! Sempre fui muito bem recebida aqui, nunca senti descriminacao e concordo que os Americanos recebem os imigrantes de bracos abertos sim ! YES, adoramos gastar tbem !

    Amo o Brasil, mas AMO viver aqui !!!

    Um abraco

    Susana

  10. Vinicius Braz

    8 de setembro de 2013 em 23:55

    Victor,

    Seus textos são impecáveis, considerando o tempo que tem disponível para escreve-los e a qualidade que são impressos.

    Ainda não tenho essa bagagem internacional que voce já adquiriu, mas espero um dia poder passar por experiencias similares tal como um ‘cigano-coorporativo’ que foi citado em um texto posterior a este.

    Os assuntos que voce discute, principalmente nessa seção “lugares por onde andei” são sempre muito interessantes, ainda te vejo escrevendo um livro no final da carreira para sintetizar todas estas inúmeras e ricas experiencias que passou durante a sua vitoriosa carreira.

    Um abraço

    Vinicius Braz

  11. Marcelo

    24 de julho de 2014 em 18:35

    Minha experiência de 3 anos nos Estados Unidos não foi boa. Mesmo sendo educado, falando um inglês razoável, tendo meu proprio negócio fui discriminado várias vezes, escutando algo como: volte para seu país. Sendo homem solteiro é pior ainda, americana não quer nada sério com os latinos. Se vc for mulher solteira a coisa muda, sempre tem um gringo encalhado para vc se casar e se legalizar.

    1. Victor

      24 de julho de 2014 em 19:40

      Depende muito de onde vc viveu lá….onde foi, Marcelo? Abs

  12. Ricardo

    15 de agosto de 2014 em 10:35

    Bom texto de opinião. Percebe-se que o que escreveu é uma opinião, fundamentada e não fruto de estigmas ou “verdades” absolutas.
    Cumprimentos.

  13. Lucy

    3 de dezembro de 2014 em 16:06

    Adorei o texto! Moro ha 3 anos aqui nos EUA, Amo morar aqui!!!!

  14. Carolaine

    16 de dezembro de 2014 em 15:15

    Resumindo: Maior qualidade de vida: EUROPA.
    Maior rede social: EUA.

  15. Zulmira

    27 de dezembro de 2014 em 01:15

    Interessante, conheço a Europa como turista e moro em NY há 8 meses. Há muitas lendas sobre os americanos algumas se confirmam, mas outras pelo que tenho conversado com alguns americanos já não existem ou são remotas. Eles te convidam sim para casa deles, não como nós brasileiros…gostei quando escreveu “sim os americanos casam e tem filhos” ao menos na região onde moro e vejo isso no office também, a família é sim prioridade. Também é muito legal a participação da “família” nas escolas. O almoço no office é algo que tenho visto mudança ainda que pequena, não vejo mais tanta pizza. Os americanos são práticos e eficientes, gosto da vida americana por enquanto fico com eles..

  16. Giovanni

    13 de abril de 2015 em 13:53

    Pergunta: tendo em mãos passaporte italiano, você viveria em Londres legalmente ou iria para os EUA e arriscar morar lá, ficando ilegal?

    1. Victor

      16 de abril de 2015 em 22:15

      Giovanni,
      É sempre melhor tentar primeiro com a questão do visto resolvida. Aí vc terá uma preocupação a menos. Se não der certo, vc aciona o plano
      B. Abs

  17. Derick

    15 de julho de 2015 em 12:29

    Victor qual cidade dos EUA vc recomendaria?abs.

  18. Larissa Santos

    31 de julho de 2015 em 23:56

    Olá Victor, gostei muito da sua comparação!
    Mas em relação a estudos, estou querendo fazer faculdade (direito) fora do Brasil e não consigo me decidir entre os EUA e a Europa.
    O que você me diria?

  19. Laís Blundi

    11 de abril de 2016 em 17:38

    Gostaria d saber como conseguem morar, tanto na Europa como nos Estados Unidos, legalmente. Sonhamos morar fora do Brasil, mas como faremos? Eu e meu marido somos aposentados e nossos 2 filhos já formados, procurando emprego.

    1. Victor

      30 de abril de 2016 em 01:59

      Lais, em ambas as situações foi por meio de trabalho em multinacionais.

  20. Luiz

    13 de março de 2017 em 13:23

    Victor, que analise bem feita ! Muito bom, realmente esclareceu muita coisa. Abs!

  21. 00x

    10 de setembro de 2017 em 00:28

    O Sr, faltou dizer que os EUA impera muito o terbalho escravo nos interiores, há grupos radicais como a klu klux klan, atentados terroristas de vez em quando, apesar de ser um mega país para abrigar megapopulaçao, muitos americanos se acham o berço do protestantismo, logo, beiram ao extremismo religioso, em contrapartida da ultratecnologia que portam e certas realidades utopias q hollywood defende, há rejeição a mestiços em certas áreas e a familia nuclear como no brasil eh mais considerada. Na europa alguns criterios ortodoxos do neo continente prevalecem, fora a miscigenação colombiana q eh um interim, e locais como portugal e italia por exemplo apesar do extremismo religioso etnico, há maior possibilidade de dialogo social por aldeia global mais proxima ao brasil e latino america. Porem nem sempre tudo que reluz eh ouro. Há locais e Locais sempre e onde for e o homem eh um ser adaptativo e mutavel.

  22. Marcia Catherine Wright

    23 de setembro de 2017 em 06:26

    Como sabe, sou européia, mas brasileira por escolha. Tb tive a oportunidade que teve de conviver de perto com os 2 continentes e concordo contigo. Não só o europeu é mais “além mar” e se interessa pelo o que acontece em outras partes do mundo mas tem algo que tb víamos até recentemente, predominar no Brasil: é mais voltado para o bem coletivo do que o individualista americano que como bem disse, reflete esse centro no ego até nos jornais de Nashville que no máximo reportam o que acontece nos estados vizinhos e dane-se Frisco ou NY. Tb o respeito às normas, às leis tá no DNA de mtos europeus enquanto nos EUA sempre tive a impressão de que o tal do ser correto tinha mais a ver com a punição, inclusive divina. i.e., um pauta a conduta por temor (respeito) e o outro, por medo. No entanto, foi na Europa que presenciava o altruísmo, a coisa de colocar o interesse coletivo acima do individual mesmo como meio de assegurar ordem e progresso de maneira sustentada. Imagino que tb seja fruto dos séculos de tempos difíceis. Não é a toa que meu pai chamava Brasil de paraíso. Um país onde há tanta abundância e tão pouco rigor imposto pela natureza, guerras, etc. que todos os valores de toda e qualquer cultura aqui cabem. Pena que como ele tb dizia, o brasileiro pouco conhece o Brasil (podia imitar o americano nisso e não no individualismo como meio de se obter sucesso) e ainda se comporta como adolescente, Não percebe nem colabora com a criação de um projeto de país de médio, longo prazo. Vive no esquema da certeza do “Deus dará” pq sabe que Ele dá mesmo, e em abundância neste continente-país.

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