Uma greve lamentável

Salvador está um caos. A greve da PM instigou saques ao comércio e criou um clima de insegurança generalizado. Ontem, houve vinte assassinatos na cidade, sete a mais que há uma semana. É difícil precisar qual a influência da greve sobre esse excedente, mas seguindo uma lógica básica, o movimento da PM já custou sete vidas, além de inúmeros outros prejuízos para o comércio e turismo.

Militares da Força Nacional de Segurança e do Exército já foram deslocados para a capital baiana e a situação deve se acalmar rapidamente. Porém, uma greve desse tipo gera um questionamento moral importante: até que ponto é correto defender os direitos de sua categoria quando isso implica em desproteger a população, indiretamente colocando vidas em risco. Aqui não se trata de parar uma fábrica, deixar alunos sem aula ou mesmo a população sem transporte. Todas as anteriores são situações críticas, mas dificilmente causarão mortes. Imagine uma paralisação de médicos em hospitais públicos, onde pessoas em estado grave não fossem atendidas por um tema de negociação salarial. É uma situação parecida. E absurda.
Pontos turísticos vazios por conta da greve
É legítimo o descontentamento salarial. Todos concordam que os policiais devem ter salários mais altos, receber mais capacitação e ser melhor preparados para desempenhar uma função tão importante. Provavelmente a demanda de 17% de aumento é justa. Mas com certeza há meios mais inteligentes de pressionar o governo do que deixar a população ‘a Deus dará’. Salvador, com a agenda repleta de eventos culturais, artísticos  e esportivos, conta com o apoio da PM. Sem ele, os eventos não acontecem. Tão simples quanto isso.

Determinadas profissões carregam consigo uma necessidade de despreendimento e devoção, quase um ato de fé. A sensação de colaborar imensamente com a sociedade não paga as contas no final do mês, mas gera um vínculo permanente e quase inconsciente entre essa categoria e a população. O caso da Polícia é emblemático. Quem não se sente melhor quando vê uma ronda perto de sua casa? Quem não sabe que o ‘190’ é o seu número? Quem não se sente  mais seguro quando os PMs chegam para resolver uma confusão? É verdade que temos casos de abuso de poder, corrupção e negligência – mas isso é da natureza humana, não é exclusividade de uma função ou profissão . O fato é que se em um mundo ideal, não há necessidade de Polícia,  no mundo real a sociedade não vive sem ela. E nos últimos dias, a população de Salvador que discou ‘190’ por alguma razão importante, não encontrou ninguém do outro lado da linha. Ao entrar em greve, ciente de todas as consequencias desse ato, a PM baiana pode ter pressionado e acuado o governo do Estado, mas também rompeu com a comunidade que ela protege.

Precisava abandonar a população? As sete mortes adicionais até agora ficarão na conta dos grevistas. Um eventual êxito da greve não apagará isso da memória de quem foi diretamente impactado por ela. A PM foi dura com o governo e seguramente fez sua voz ecoar alto no Palácio Rio Branco.  O efeito colateral dessa ação será visualizado nos funerais decorrentes da violência dos últimos dias. Lamentável.

2 Comments
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2 Comentários

  1. Paulo Sampaio

    4 de fevereiro de 2012 em 10:00

    Victor, é o tipo da situação na qual governo e grevistas estão errados, mas quem de fato é o mais prejudicado é a população. Concordo que médicos e policiais não poderiam fazer greve de jeito nenhum. Mas o Estado deveria promover as condições para isso. Acho um pouco ilusório acreditar em devoção nesse caso. Aliás, cá entre nós, acho que na maioria dos casos o que leva o cidadão para a polícia é a vontade de ter poder e de colocar para fora a violência. Não vou generalizar, mas quando olho nos olhos de um PM geralmente tenho medo, e não alívio. Tenho a impressão de que a farda o inibe de sair atirando no primeiro que ele não for com a cara. Enfim, voltando ao assunto específico, eu colocaria essas 7 mortes também na conta do Estado, que não sabe selecionar, gerenciar e pagar a polícia. Está tudo errado, em suma.

    1. Victor

      5 de fevereiro de 2012 em 02:31

      Paulo,
      Concordo que a inoperância do Estado é causa de inúmeras mazelas, mas nesse caso em particular, vamos imaginar que não houvesse greve. Provavelmente o número de homicídios em Salvador estaria rodando nos níveis usuais. Só que a ausência completa da PM na rua seguramente estimulou a escalada da violência. Passar de 13 para 20 assassinatos por dia não é normal. Na verdade, vi que esse número subiu um pouco mais. Acho que o governo ness e episódio demorou para providenciar a contingência. Mas fazer a greve é algo opcional, não é uma situação inevitável. E PM fazer greve desse jeito é o fim da picada( como eu escrevi, havia maneiras mais inteligentes e tão efetivas para defender a causa). Por isso, ponho na conta dos grevistas a responsabilidade pelo excedente de homicídios. Se eu fosse PM baiano, não dormiria mais tranquilo depois dessa…
      Abraço,

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